19 janeiro 2016

Era uma vez uma parede branca

Ontem concluí algo que venho adiando e adiando desde o começo de dois mil e quinze, sem querer talvez, inconscientemente, mas, de qualquer modo, evitando e escondendo isso no fundo de mim. Acontece que tenho essa mania indesejável de adiar ao máximo aquilo que importa e que preciso fazer, então fechar um ciclo é extremamente importante pra mim e merece ser lembrado, comemorado em sua plenitude. E se existe algo que me provoca genuína felicidade é conseguir realizar, concluir algo; não importa o tamanho da tarefa - embora, quanto mais complicada, mais satisfatória -, o que importa é a ação de fechar um ciclo. Fico extremamente satisfeita comigo mesma. 

E nesse caso, a satisfação foi em níveis estratosféricos porque além de concluir uma meta, coloquei minha energia e tempo no processo e ainda decorei meu quarto. Sim, finalmente inaugurei minha parede de quadros feitos, em sua maioria, por mim mesma. Cada um deles significando algo e mostrando pedacinhos de mim, de coisas que gosto e daquilo que sou. Dá pra imaginar minha alegria em finalmente montar o começo da minha parede né? Sim, apenas o começo, porque ainda me resta muito espaço em branco pra preencher. 


Tenho medo de começos, me assusto com a perspectiva de que coisas já conhecidas mudem drasticamente. Me vejo no meio de uma sala cheia de espelhos por todos os cantos, nua, entregue, vulnerável a pedras no caminho e olhares inquisidores. Tenho medo de errar, de cair, de começar e não ser capaz de terminar, de me perder, de me ver mas não me enxergar entre tantos olhares e perspectivas e de, principalmente, não saber mais quem é meu eu real. Assim como é desafiador escrever aqui sobre inícios e minhas reações, assim como preciso costurar cada pedacinho de palavra e montar algo que diga aquilo que quero dizer. Mas preciso dizer. 

Não foi fácil colocar o primeiro quadro na parede, ajustar os ângulos, as posições. Tanto é que demorei praticamente um ano pra finalmente começar. Comecei. 

Esse ano de dois mil e dezesseis é um começo, é o início de um momento que adiei e adiei até meu coração se sentir (des)confortável o suficiente pra dizer chega! E ele disse, e foi doído, foi complicado, mas foi palpável e real demais pra ser simplesmente ignorado.

(Esse post vai ficar tão confuso quanto qualquer começo na minha vida, já vou avisando, porque preciso dos meus pés fincados no chão ao mesmo tempo que quero levantar vôo, isso aqui vai ser um monte de paradoxos misturados com um monte de dúvidas e sentimentos à flor da pele.)

Dia desses, relendo meu post da retrospectiva literária, percebi que esqueci de um livro. Mas não foi qualquer livro, foi, provavelmente, o livro de 2015. Um livro que falou tanto de mim que tive medo, claro que com ressalvas né porque Esther tem problemas sérios. Um livro sem palavras, tocante, doído e que me deu umas das quotes mais minhas e que coube tanto com o que sentia numa época cuja dúvida em fazer jornalismo e desistir de medicina imperava em mim:

"As pessoas são feitas de nada mais que poeira, e eu não conseguia entender como tratar de toda aquela poeira era melhor do que escrever poemas que as pessoas lembrariam e repetiriam pra si mesmas quando estivessem tristes, doentes ou insones" A redoma de vidro

Não sou a Esther, não quero ser ela, mas tenho um pouco do que ela é, de tudo o que sente dentro de mim. Vivo dentro dessa redoma, cheia de dedos e cambaleando um pouco nessa loucura que é a vida, que é crescer e me vejo às vezes perdida dentro de silêncios, dos meus silêncios. E me perco no meio desse tanto de incertezas, de pessoas e do tamanho desse mundo ao redor do meu próprio mundo. Na imensidão que é viver, que é conviver e ser quem somos - sem saber, na maioria das vezes, no que consiste ser quem a gente é. Mas eu vou tentando, vou caindo, seguindo - com medo sempre -, só que às vezes me deparo com a linha que separa minha redoma do mundo real e aí o bicho pega, porque tudo que quero fazer nesse momento é recolher minhas coisas, deitar na minha cama e pedir por favor ao universo que me deixe quietinha no meu canto. Porque é mais cômodo e fácil, obviamente.

Acontece que, ainda bem, existe um mundo além desses muros e eu preciso transpassá-los pra poder alcançar o melhor e também o pior, inevitavelmente, porque viver é isso. Confesso que quando resolvo colocar um pouco meus pés pra fora dessa linha que construí pra mim mesma, me divirto demais e tenho vontade de destruir todas essas paredes ao meu redor. Mesmo com todo medo, mesmo com as incertezas decorrentes dessa escolha. É delicioso se permitir, seguir o vento, abrir as asas. E eu preciso, preciso, preciso (três vezes pra enfatizar) sentir tudo isso, sentir o vento no meu rosto, meu joelho machucado, minhas mãos calejadas de tanto tentar, de tanto cair e não desistir. (Agora, nesse exato momento) Acho inadmissível o morno, não quero e nem me agrada.

É aí que entra 2016 e começos. Nesse ano eu decidi destruir minha redoma, decidi fazer as escolhas que me desafiam, me provocam. Resolvi dar uma chance a mim, a quem quero ser, às minhas escolhas. Já comecei a quebrá-la, pouco a pouco, quando me inscrevi e decidi fazer outro curso, além de medicina; quando já no primeiro mês resolvi sair pra comemorar a vida e quando decidi começar a preencher minha parede em branco - metafórica e literalmente. E por aí vai, e estou indo - com medo mesmo, muito, mas me divertindo horrores com a perspectiva de enxergar cada dia mais o bom e o ruim de se estar no mundo.

Desse modo, eu começo; inauguro o blog esse ano, inauguro uma possível nova eu, um novo começo nesse ano bissexto e desejo que o caminho seja cheio de curvas porque em cada uma delas, descubro mais um pouco de mim mesma. Espero que continuemos juntos nessa jornada cheios de esperança e doidos pra ver um pouco mais do que ainda está por vir.

Obs: Já vou logo adiantando: eu desisto da medicina, mas ela não desiste de mim. Então não fui pra área das humanas ainda, fui pra odontologia. Mas, novamente, medicina ainda não desistiu de mim.