01 novembro 2016

Uma colcha de retalhos do meu dia (e pensamentos)

Moro no décimo segundo andar, já disse isso? E uma das coisas que mais gosto de fazer é observar as pessoas dos outros prédios pela janela, não de um jeito creep, só vê-las lá, andando, assistindo tv, comendo, estudando. Gosto de fazer isso quando to reflexiva, paro na varanda e fico lá observando. 

Não é segredo pra ninguém que gosto de pessoas, gosto mesmo, não sei explicar bem o porquê, só sei que gosto e por enquanto isso basta. Hoje atendi umas pessoas pela primeira vez (já disse que pago uma cadeira de saúde na comunidade - tipo um estágio? - e toda semana vou pra Unidade de Saúde da Família - coisa mais linda é esse programa, sério), perguntei nome, fiz uma rápida anamnese e aferi a pressão. Minhas mãos tremeram muito, meu coração tremeu todo. Mas não tive muito tempo pra pensar em todas as reações que passavam pelo meu corpo, eu tinha que ir lá e atender, simples assim. 

Preciso falar um pouco sobre a Estratégia de Saúde da Família ou ESF pra resumir (sim, esse post vai parecer um monte de recorte mas ok me aceitem). A ESF é um programa/estratégia que se insere na atenção básica, ou seja, no primeiro nível de cuidado à saúde do SUS e consiste no acompanhamento de uma comunidade, desde a prevenção, promoção e cuidado da saúde. Resumindo, a ESF cuida do paciente antes dele ficar doente, acompanha ele em todos os momentos e tenta sanar alguns problemas básicos daquela comunidade, tipo gripe, resfriado, dengue; também marca exames, tem programas de exercícios físicos, dentista e por aí vai (coisa linda mesmo!). 

Vai fazer um ano que estagio numa Unidade de Saúde de um bairro de Maceió que tem a ESF e eu sou completamente apaixonada por ela (sério, mas é segredo). A unidade tem seus problemas, sim, as paredes dão choque, o segundo andar tá condenado, alguns funcionários não trabalham tanto quanto deveriam, falta equipamento, falta um monte de coisa, mas, apesar disso, ela funciona e funciona muito bem. Desde que entrei ali e comecei a conviver com os pacientes da comunidade, entendi o que era ser médica, enfermeira, dentista, agente de saúde dessa estratégia, percebi a genialidade de tratar as pessoas antes delas ficarem doentes, percebi a beleza de acompanhar cada uma das pessoas pela vida, acompanhar a gestação e o crescimento de uma criança daquele lugar, percebi a beleza dos vínculos que a ESF proporciona; o olho no olho, o saber o nome, conhecer a família, saber quais problemas realmente estão por trás daquela dor de cabeça de mais de um mês. 

Enfim, pra mim, apaixonada por pessoas me vi completamente completa (sim). Coisa linda mesmo, sem palavras. 

Aí também hoje, só que mais tarde, comentei com uma amiga que as coisas com sentimento têm um quê a mais né? Tava falando de paixão mesmo, porque faz tempo que não sei o que é isso, e percebi que coisa linda é sentir, mesmo pela perspectiva real e crua do sofrimento quando aquilo acabar, afinal tudo é finito (não de um jeito ruim). Mas sentir é belo, seja a paixão, amor, carinho, qualquer coisa. Que coisa louca essa coisa de olhar uma pessoa e sentir algo por ela, não é? Que coisa louca isso de eu ser eu e ter alguém sendo alguém e a gente se encontrar e ter sentimento. Louco e belo. 

Aferi a pressão de duas pessoas, um senhor idoso e uma mulher relativamente jovem. Um tinha pressão alta, a outra baixa. Tentei me esconder um pouco, evitei aferir a pressão de mais gente (ainda to aprendendo a lidar com toda a responsabilidade de não somente olhar e observar as pessoas, mas lidar com elas, cuidar) porque meu coração não podia sair pela boca né. Pra uma primeira vez ta bom: dois, quatro olhares, o toque no pulso, os batimentos cardíacos, as emoções, a vida. 

Olhei mais a frente pela varanda, cinco janelas com a luz acesa, um monte de batimentos cardíacos e emoções, vários sentimentos. Nenhum deles eu conheço, quem sabe um dia. 




15 outubro 2016

Duas tapiocas e uma crepioca

Hoje eu acordei sem querer, meio acordada meio dormindo, tomei meu remédio de setes horas da manhã, e voltei pra dormir mais um pouco. Mais tarde, umas doze horas - afinal é fim de semana e dormi tarde -, acordei novamente, dessa vez definitivamente, toda dolorida, prevendo que o dia seria difícil e doído em todos os sentidos.

As horas passaram de um jeito maravilhoso, só que ao contrário: não arredei o pé da mesa de estudos, apenas pra fazer o almoço (e que amoço!) e rapidamente voltei pros livros, porque essa semana tem um monte de provas e eu só queria férias. E claro que, como pessoa ultrarresponsável que não sou, os assuntos não estão em dia e to aqui morrendo e matando pra dar conta de tanta coisa, mas né vida que segue. A questão aqui não é essa. 

Encurtando um pouco a história e poupando a todos dos detalhes sórdidos e emocionantes do meu sábado, quase agora fiquei com fome e já estava saturada de tanto estudar, ou seja, seria uma boa hora pra ter um intervalo.

Voltando um pouco no tempo, quinta-feira fui no mercado fazer umas compras, o caso estava sério aqui em casa, não tinha mais nada pra comer e, como sempre, fui com uma amiga no intervalo entre aulas (porque qualquer tempinho é válido). (Já disse que amo fazer compras no mercado? Sim, amo) Lá, me deparei com massa de tapioca (amo tapioca), só que nunca fiz na vida, comentei com a miga e ela me disse pra ter vergonha na cara e comprar a massa porque "tapioca é muito fácil de fazer". Então fui né, comprei. Cheguei em casa, olhei a massa, guardei na geladeira, esqueci dela e hoje fiquei com vontade de me aventurar e tentar fazer.

Nesse intervalo mara entre estudos, fome, comida, fazer jantar etc, peguei a massa de tapioca. Olhei, olhei de novo, tirei da geladeira junto com presunto e requeijão (sem lactose) e fui fazer. Como nada na vida dessa que vos fala é simples e etc, já fui prevenida de como deveria fazer a bendita com instruções da miga do mercado.

Peneirei 4 colheres de sopa da massa.
Esquentei a panela antiaderente (fiquei em dúvida se deveria colocar manteiga ou o que mas n coloquei nada no fim das contas)
Joguei a massa de modo aleatório (ficaram uns buracos no meio, tentei ajeitar mas n consegui e desisti)
Coloquei presunto e requeijão e dobrei
Tirei do fogão e mordi (Delícia!!!!)
Quis outra.
Repeti todo o processo, mas agora mais profissionalmente e sem buracos na massa (Delícia de novo!!!)
Resolvi ousar mais um pouco.
Crepioca!!!
Juntei a massa temperada com 1 ovo, coloquei sal (não sabia se devia mas coloquei mesmo assim)
Joguei na panela, coloquei cebola, presunto, dobrei e Puf

Fui sentar na mesa com minha crepioca, enquanto observava o horizonte ao longe - pela varanda - e tomava meu nescau (zero lactose também!!) e dei a primeira mordida. DELÍCIA!!!!
E foi aí que eu me emocionei com toda a beleza desse momento, sabe como é? Tem uns segundos, minutos que batem forte na nossa face e mostram certas coisas que nos dizem que a vida é muito bela; coisas aleatórias, como fazer uma tapioca e/ou crepioca pela primeira vez na vida, sentada em uma cidade distante, sozinha, vivendo a vida. Depois de um dia cansativo, trabalhoso, apenas sentar e saborear algo que fiz pela primeira vez, a massa que comprei no mercado que fui, onde faço minhas compras sempre, escolho minhas verduras, frutas, o que comer, onde estacionar o carrinho, quantos pães cabem no orçamento e por aí vai.

Gosto dessa coisa tímida de apenas ser e viver, sabe? Meu dia poderia ter sido como qualquer outro, mas eu escolhi fazer uma tapioca pela primeira vez e isso mudou a minha vida, pelo menos um tiquinho. (Saudade daqui)






19 julho 2016

11 coisas que eu diria para a Bia de 11 anos:


1- O mundo é muito grande, tem muita coisa interessante e linda pra se ver fora de casa se você decidir se arriscar um pouco. Mas sem pressão, só vai se tiver com vontade, viu? Ler a vida das pessoas nos livros é bom também, mas você não se arrependerá se colocar um pouco os pés na terra. 
2 - Fico feliz que você estuda e tira notas boas, mas nem sempre isso irá acontecer e tudo bem. O mundo não vai acabar porque você ficou em recuperação pela primeira vez em português. Calma, respira. 
3 - Você precisa encarar as coisas de frente, se alguém te fala algo ruim ou que você não concorda, não tenha medo de usar sua voz. Você a tem, forte, só precisa aprender a usá-la. 
4 - Sei que você vê as coisas de um jeito diferente, mas segue vendo o mundo assim, apesar do que te mostrarem de contrário. O mundo é lindo sim, as pessoas também, mesmo que às vezes pareça que não. Muitas vezes vai ser difícil continuar acreditando, mas você vai lá e continua mesmo assim. 
5 - Você precisa começar a aceitar quem você é, suas vontades, seus medos, seu corpo, seu cabelo, cada parte sua. Você vai perceber com o tempo que estar dentro de você mesma é lindo, mesmo com todos os defeitos que você vê agora. 
6 - Às vezes vai parecer que o mundo ta acabando, nessas horas você senta, chora, pensa um pouco e levanta. Cada uma dessas vezes vai te fazer mais forte no futuro. 
7 - Nada é pra sempre e isso não é ruim. Nem os amigos, nem a dor, nem as paixões. Nada, isso pode até parecer duro, mas é uma das maiores belezas da vida e você vai perceber isso com o tempo. 
8 - Não, você não precisa ficar com ninguém agora. Você vai ver que tudo vai acontecer no tempo certo.
9 - Aproveita mais quem ta do teu lado, tua família principalmente. 
10 - Deixa de vergonha na vida, para de querer esconder as coisas por causa do que os outros pensam. Esquece os outros, você não tem que ser nada por ninguém.
11 -  Apesar de pequena, tenho orgulho de quem você é hoje. Continua firme no que você quer, no que você acredita e paciência que as coisas darão certo. 







Observação: Não sei de quem é a autoria desse meme, só sei que peguei no facebook e resolvi fazer aqui. 

23 maio 2016

Amo até o meu amor, tão meu



Hoje cheguei a conclusão que amo demais as tuas coisas tão tuas.
Corro, fujo, escondo, engano, disfarço. E você volta.
Mesmo sem jeito, todo errado, ao contrário, orgulhoso.
Você todo, inteiro.

(Gosto de acordar contigo escondido nas minhas cobertas, pensamentos e quereres)

15 maio 2016

Às vezes eu só preciso falar

Gosto de pensar que tudo tem dois lados, normalmente prefiro me concentrar naquele que se mostra o melhor. É aquela história do copo meio cheio meio vazio, sempre senti que o mais aconchegante a se fazer é focar bem naquele que se mostra metade cheio, não há motivos coerentes pra se ver sempre aquele que não está cheio - pelo menos pra mim. Claro que ele também é essencial e, inclusive, todo mundo tem seus momentos, aqueles momentos que nada parece ser bom, ou dar certo ou ser incrível na vida,

Faz uns meses tenho entrado numa maré de sorte, vocês bem o sabem, nem preciso entrar em detalhes. Mas, depois de um tempo tentando sempre olhar só pro lado bom disso, fiquei exausta. Não tenho mais forças pra esconder debaixo do tapete tudo o que anda me incomodando, mesmo que minha vida esteja muito boa pra ser verdade em relação ao que eu tinha nesse mesmo mês ano passado ou se comparado com o monte de gente que queria estar no meu lugar ou até parando pra pensar na situação triste do país e todas as pessoas que sofrem diariamente. Teoricamente, não tenho do que reclamar, não tenho por que falar algo além de agradecimentos, não é? Sim.

E não. 

Somos pessoas, cada um nesse imenso mundo com um problema particular, uma tristeza, uma dor. E posso não ser especialista em nada e etc, mas tenho a grande suspeita de que são dores e problemas incomparáveis. Não existe uma disputa de quem sofre mais ou tem os maiores problemas, uma coisa não anula a outra. Nesse sentido, não há ganhadores, só humanos tentando acertar, viver um dia apos o outro com menos tristezas e mais alegria. 

Apesar de saber disso, não é fácil falar de como é difícil viver aqui sozinha, com todas as coisas boas que tenho, enquanto tem gente dormindo no meio da rua, sem casa ou sem comer. Minha dor não é nem um pouco comparável a dessas inúmeras pessoas, é até injusto abrir a boca pra falar algo. 

Mas eu preciso falar, eu preciso colocar aquilo que me aflige pra fora, todos nós precisamos. Isso não quer dizer que somos egoístas, quer? Sou só humana. Às vezes me faltam palavras, me falta coragem de dizer o que meu coração quer dizer quando o mundo parece estar desabando, me pego olhando pra mim mesma e encarando todas as minhas esquinas meio esquisitas. Não sou perfeita, sinto frio, sinto saudades, tenho ciúme, raiva e às vezes só quero ficar em posição fetal chorando até todo esse peso impensável sair de dentro de mim, até todas as dúvidas irem embora. 

Amo quem sou hoje, amo o lugar onde estou, tenho consciência da oportunidade que estou tendo e percebo que ela é única pra mim e deve ser usada da melhor forma possível. Mas dói ser sozinha aqui, dói não ver minha família, dói acordar pensando que to em casa definitivamente, ao invés de mais um dia aqui. (Também me pesa a saudade das comidas mais elaboradas, não aguento mais comer só frango e macarrão). Meu coração pesa, duvida e sofre. Um sofrimento pequeno pra muitos, mas às vezes grande e o suficiente pra me fazer chorar aos domingos.

Por enquanto estou curtindo esses dias de copo meio vazio, preciso desse tempo pra me descobrir, perceber minhas angústias, minhas dores e ânsias. Afinal, tudo tem dois lados, nem tudo são flores o tempo todo, né? Não sei como terminar esse post, sinceramente, porque ele meio ta todo sem lógica? Mas também não tem problema, ele é o reflexo de mim mesma. É preciso aceitar a inconclusão e imperfeição de certas coisas. 




(Quero fazer um apanhado de coisas legais que vi/escutei esse mês vou me programar prometo)
(Também quero ser gente aceitável e responder os comentários de quem ainda não desistiu e aparece por aqui, vou responder!! Obrigada por ainda estarem por aqui, isso significa muito em dias em que me sinto sozinha demais no mundo e sempre) 

11 abril 2016

Enquanto a máquina termina de lavar as roupas

Sei que ando monotemática, mas juro que vou tentar mudar isso. As coisas estão se ajeitando, to começando a anotar as coisas, determinar meus horários, fazer a lista de compras do mês, e até as faxinas semanais. 

Vim aqui hoje dizer que nunca pensei que estaria aqui. Sim, novamente, to falando sobre como é surreal viver esse mundo da  medicina, mas não quero falar somente disso, também quero dizer que nunca pensei que realmente estaria aqui, cuidando da minha própria casa, da minha comida, da lavagem das roupas, das compras e contas certinhas pro mês. É louco, é surreal, triste, mas bom demais, tudo junto e misturado. 

Sei que já faz um mês que não apareço aqui, por isso vou fazer logo um apanhado geral do que me aconteceu esses dias. Primeiro de tudo, estou me acostumando à cidade, não é igual a viver numa cidade que conheço desde que nasci, mas não é tão ruim que eu queira sair correndo. Na verdade, só mudei de escola uma vez, mudei de casa poucas vezes, então ter uma mudança drástica dessas foi e está sendo enriquecedor demais pra mim. Por isso vou espalhando aos quatro ventos que cresci nesse mês o que não cresci em três anos, quatro ou cinco e continuo a crescer. 

To andando, seguindo e feliz como não estive em um bom tempo. Sabe quando você se encontra? Pronto, eu me encontrei aqui, estou realizada. Sinceramente, desejo esse sentimento a todo mundo, o sentimento de dever cumprido (Tá, não to nem no começo, mas to no caminho e isso já é suficiente pra mim) 

Confesso que não tenho vida, até tenho, mas ela se resume a fazer feira e estudar (e fazer faxina). E só, to falando sério. Várias vezes durante as semanas, enquanto escrevia uns relatórios, tive vontade de escrever aqui, trocar o relatório pelo blog, mas sabe como é né, preciso tirar notas boas. Como tive prova sábado e to esperando a máquina terminar de lavar as blusinhas que coloquei, arranjei esse tempo pra dar um oi e dizer que não morri, só to por aqui vivendo (enlouquecendo). 

Hoje fui pela primeira vez numa Unidade de saúde, numa comunidade carente, onde permanecerei por quatro anos do curso, aprendendo e contribuindo com tudo de possível. E me encontrei, e amei e percebi que o ser humano é lindo demais, por isso quero ser cada dia mais humana, tanto quanto possível. Sei que é só o começo, mas a perspectiva de ser um pontinho de amor nesse mundo, de atenção e cuidado me dá forças pra aguentar todas as noites sem sono (muitas), até as vezes que acordei de madrugada pra estudar, e os professores que tenho que aguentar, os termos técnicos e toda a não-vida minha de hoje em dia. Novamente, me encontrei e nessas curvas da vida, ando me encontrando cada dia mais. 

Só tenho motivos pra agradecer, até os aperreios e as vontades de jogar tudo pro alto porque é loucura demais esse curso (sério) e é coisa de louco mesmo, por isso que tem gente que fica meio perturbado. O curso exige muito da gente, mas esses encontros, essas visitas às comunidades e toda vez que paro pra ler um pouco sobre o SUS e percebo que existe tanto pra fazer, tanto pra contribuir, tanto pra doar, eu percebo que no fim valerá a pena, já ta valendo. Então eu sigo, vou seguindo, feliz da vida e com o coração feito escola de samba, doido pra pular do peito, sair sambando por aí e chamando todo mundo pra sambar junto comigo. Vamos lá, dança também, porque a vida é bonita demais. 


10 março 2016

Pensamentos desconexos sobre uma semana e tanto

Deixa eu contar uma coisa pra vocês, faz exatamente uma semana e um dia que estou nesse estado totalmente quente e desconhecido na vida dessa que vos fala. Sim, caros amigos, Alagoas, ou mais precisamente, Maceió é mais quente que Recife. Como isso é possível, vocês me perguntam, eu não sei responder. A questão é que to aqui e, adiantando, ta sendo uma loucura só.

Cheguei quarta, depois de aproximadamente quatro horas de viagem de carro, com minha vida - quase -  toda na mala. Com exceção dos meus livros, trouxe tudo, inclusive minha vontade, esperança e tudo o mais que uma mudança dessas é capaz de causar em qualquer um. Finalmente cheguei, arrumei tudo no lugar, fui na faculdade pegar horário e etc e pronto. Vida nova. Minha mãe passou cinco dias aqui comigo, ficamos eu, ela e minha "roommate". Nesses dias, quando não estava na faculdade, íamos conhecer a cidade que, sinto muito, não chega aos pés de Recife (não que haja uma comparação) (tem sim). Meu novo apartamento fica exatamente ao lado da faculdade e a aproximadamente três quarteirões da praia, não que isso me interesse. Na quinta pela manhã, fui pra uma reunião. Conheci algumas pessoas da turma, alô alô prazer como é que tá tudo bem cê é de onde e por aí vai.

Enfim. Sábado minha família toda veio aqui, fomos fazer feira, comemos, passeamos e ficamos juntos, como sempre aconteceu. Até chegar o domingo. Às 13:00 eles foram embora, todos eles, inclusive minha mãe. E foi aí que eu chorei pela primeira vez desde a descoberta inusitada de que me mudaria e cursaria medicina. Mas eu chorei tudo o que eu não tinha chorado ainda e muito mais. Chorei por estar, finalmente, de cara com o curso que sempre sonhei. Chorei com a perspectiva - até realidade - de um dia me tornar, mesmo, médica (Depois de um tempo tentando passar e não conseguindo, eu via essa realidade cada dia mais distante). Chorei porque eu me sentia feliz, mas algo em mim pesava demais.

Sou uma pessoa completamente família. Pode não parecer, ou talvez eu não deixe transparecer, mas eu sou tão família que não sei ser sozinha, não sei ir em restaurantes sem pensar em levar minhas irmãs, ou pensar em comer fora da mesa - até hoje como na mesa, mesmo sozinha-, não sei viver no completo silêncio por muito tempo (mesmo que o ame), não sei não ter com quem conversar por madrugada adentro, ou discutir sobre feminismo, ou apenas falar do dia que passou antes de dormir. Também não sei tomar decisões sem consultar outras opiniões antes, não sei viver sem implicar com minhas irmãs ou qualquer coisa parecida. Porque eu nunca fui só, nunca precisei ficar só.

Só que domingo eu fechei a porta, enquanto eles desciam pelo elevador, e me vi completamente sozinha, numa cidade estranha, cheia de gente estranha e com pessoas conhecidas a "apenas" 4 horas de viagem. Foi aí que não consegui segurar, eu precisava colocar pra fora essa sensação estranha de vazio, de completa e absoluta incógnita. Então eu chorei.

Apesar da estranheza inicial, como a faculdade praticamente me suga inteira, passei os dias seguintes nessa sensação de estar e não estar num lugar, de sonho versus realidade, ou de férias passageiras. Acho que ainda não caiu a ficha de que passarei, no mínimo, seis meses aqui. Mas é que, sinceramente, nem deu tempo de pensar a respeito, eu só to indo e indo e indo. E, nesse processo, enlouquecendo, ao mesmo tempo que sinto calor, estudo, decoro ossos e rio um pouco da loucura que é viver esse sonho doido que é cursar MESMO medicina. Depois de tanto tempo, vocês têm noção? Acho que a ficha ainda não caiu. Na verdade, nenhuma ficha caiu. Ta tudo muito doido e, sinceramente, as coisas só melhoraram agora porque recebemos três dias de mini férias e todos os artigos que tinha pra entregar foram cancelados. Estamos, eu e meus colegas de classe, em êxtase. FESTA FESTA COMEMORAÇÃO, pelo menos enquanto ainda podemos - ou temos tempo. (Gente, recadinho rápido aqui, quem quiser fazer medicina e tiver a ingênua ideia de que depois ainda terá vida social, desista, corra, vá pra outro curso (isso porque só comecei agora e dizem que só piora!!!!!!!!!!)). Mas, juro, vale a pena toda a dor de cabeça, todos aqueles choros (mas se puderem passem perto de casa - recomendo)

Apesar de odiar viver em Maceió (Sei que odiar é uma palavra muito forte, mas depois que vim pra cá amo TANTO TANTO Recife que vocês não têm noção) e de, ás vezes, querer largar tudo pra voltar pra minha casinha, minha caminha, meu aconchego e meu lar, quando eu paro pra pensar, me olho no espelho de jaleco e me imagino lá na frente, daqui uns anos, sendo MESMO médica, meu estômago fica todo cheio de borboletas, meus olhos brilham, meu coração pula, faz escândalo, se emociona; é aí que eu percebo que to no caminho certo e sinto que as coisas darão certo. Porque, dizem, o amor é, e também tem, a resposta pra tudo. Então quando as coisas pesam demais, nesses oito dias elas já pesaram algumas vezes, eu paro, penso e sinto tudo aquilo que vive dentro de mim, e percebo que to indo, seguindo no melhor caminho. (Ah e nunca totalmente sozinha )





Obs: Sinto que esse tempo longe da minha família, mesmo sendo difícil, vai me tornar uma pessoa melhor, conhecedora da minha própria força e liberdade. Sei que esse é um passo muito importante pra mim. 
Obs2: Sinto muito pela loucura que foi esse post, mas o que posso fazer? As coisas estão realmente uma loucura. Nada mais lógico. 
Obs3: Até hoje à tarde eu tinha tanta coisa pra fazer que tava me batendo uma bad paralisadora, não tinha tempo nem pra respirar, quiçá dormir. Só de pensar que dormirei linda e bela hoje, fico maravilhada. Por isso, to devendo mimo pra algumas pessoas maravilhosas que ainda não desistiram de mim e continuam a comentar nesse blog, me perdoem por demorar tanto pra responder os posts, é que ta TUDO MUITO LOUCO MESMO. Mas juro que assim que der apareço pelos cantinhos de vocês. 
Obs4: Sim, já to bem cansada, mas também to bem feliz. 

20 fevereiro 2016

Absolutamente, meu mês



Julho sempre foi meu mês, férias, descanso e lá pro finalzinho meu dia, 28 de julho. Nunca duvidei dos ares agradáveis que me atingiam nesse período de trinta e um dias, julho sempre foi meu mês, não havia dúvidas. Até uma semana atrás. Segunda-feira da semana passada (ou dessa semana), eu descobri que março é meu mês e, quem sabe, fevereiro também. Acontece que nessa última semana, fevereiro resolveu ser meu amigão e me encheu de alegria, amor e uma reviravolta extraordinária, dessas que mudam a vida mesmo. E mudou. Em apenas um dia eu percebi que minha vida nunca mais seria a mesma, eu não seria mais a mesma. Nunca mais serei.

Fevereiro desbancou, sem dúvidas alguma, julho, porque ele me deu o amor da minha vida. Num dia qualquer, meio melancólico por toda carga de fim de carnaval que carregava consigo, a segunda-feira foi muito menos do que fatídica, foi sensacional, foi sem palavras. Segunda-feira, começo do ano, fim do carnaval, dia da preguiça, me deu nada menos do que a minha aprovação em medicina. E foi aí que eu morri e nasci de novo. Porque a felicidade não coube em mim e, por incrível que pareça, ainda não cabe.

Não sei quantas vezes já sonhei com esse momento, nem quantas vezes achei que ele nunca chegaria. Sei lá, a vida parecia me dar inúmeras coisas, mas já estava desistindo dessa aí. Acontece que nenhuma dessas vezes que sonhei com meu nome ali, numa lista de aprovados pro curso de medicina, chegou perto da sensação, ou do peso que foi tirado dos meus ombros e da felicidade que senti e ainda sinto quando penso que março eu começo essa minha jornada, depois de quatro anos tentando. Parar pra pensar e perceber que março é o início de uma jornada pela qual lutei tanto, tanto e quis tanto, muitas vezes mais do que o saudável, me deixa extasiada, feelings are the only facts.

Além de toda a montanha russa de sentimentos causada pela minha aprovação, ainda quero acrescentar uma outra reviravolta que acontecerá em março, mudarei de estado porque minha faculdade fica em Maceió, Alagoas. Ou seje, estou cheia de ansiedade misturado com medo, apreensão e com a assustadora perspectiva de ir morar sozinha numa cidade desconhecida. Mas, também, cheia de vontade de desbravar esse novo mundo, novo mês e nova vida, que tenho certeza que será simplesmente inacreditável.

Por enquanto é isso, passei aqui pra dizer que as coisas estão mudando drasticamente (eu sumi, eu sei), também que eu finalmente cheguei e to doida pra começar esse novo caminho, ir em busca do grande talvez, do desafiador e do total desconhecido. Sinto que as coisas estão mudando muito, e quero que vocês sigam comigo nessa jornada assustadora-divertidíssima-desafiadora-e-cheia-de-amor. Obrigada por aguentarem toda minha confusão, minhas inseguranças nesses quatro anos de incertezas, medos e etc. Esse não é um adeus, mesmo que pareça, é só um novo e reformulado "Olá, tudo bem?"; sigo daqui, a partir deste momento, desbravando tudo que a vida tem pra me dar. Ansiosíssima e com a certeza de que a vida é bonita demais (E tem o tempo certo pra tudo).



19 janeiro 2016

Era uma vez uma parede branca

Ontem concluí algo que venho adiando e adiando desde o começo de dois mil e quinze, sem querer talvez, inconscientemente, mas, de qualquer modo, evitando e escondendo isso no fundo de mim. Acontece que tenho essa mania indesejável de adiar ao máximo aquilo que importa e que preciso fazer, então fechar um ciclo é extremamente importante pra mim e merece ser lembrado, comemorado em sua plenitude. E se existe algo que me provoca genuína felicidade é conseguir realizar, concluir algo; não importa o tamanho da tarefa - embora, quanto mais complicada, mais satisfatória -, o que importa é a ação de fechar um ciclo. Fico extremamente satisfeita comigo mesma. 

E nesse caso, a satisfação foi em níveis estratosféricos porque além de concluir uma meta, coloquei minha energia e tempo no processo e ainda decorei meu quarto. Sim, finalmente inaugurei minha parede de quadros feitos, em sua maioria, por mim mesma. Cada um deles significando algo e mostrando pedacinhos de mim, de coisas que gosto e daquilo que sou. Dá pra imaginar minha alegria em finalmente montar o começo da minha parede né? Sim, apenas o começo, porque ainda me resta muito espaço em branco pra preencher. 


Tenho medo de começos, me assusto com a perspectiva de que coisas já conhecidas mudem drasticamente. Me vejo no meio de uma sala cheia de espelhos por todos os cantos, nua, entregue, vulnerável a pedras no caminho e olhares inquisidores. Tenho medo de errar, de cair, de começar e não ser capaz de terminar, de me perder, de me ver mas não me enxergar entre tantos olhares e perspectivas e de, principalmente, não saber mais quem é meu eu real. Assim como é desafiador escrever aqui sobre inícios e minhas reações, assim como preciso costurar cada pedacinho de palavra e montar algo que diga aquilo que quero dizer. Mas preciso dizer. 

Não foi fácil colocar o primeiro quadro na parede, ajustar os ângulos, as posições. Tanto é que demorei praticamente um ano pra finalmente começar. Comecei. 

Esse ano de dois mil e dezesseis é um começo, é o início de um momento que adiei e adiei até meu coração se sentir (des)confortável o suficiente pra dizer chega! E ele disse, e foi doído, foi complicado, mas foi palpável e real demais pra ser simplesmente ignorado.

(Esse post vai ficar tão confuso quanto qualquer começo na minha vida, já vou avisando, porque preciso dos meus pés fincados no chão ao mesmo tempo que quero levantar vôo, isso aqui vai ser um monte de paradoxos misturados com um monte de dúvidas e sentimentos à flor da pele.)

Dia desses, relendo meu post da retrospectiva literária, percebi que esqueci de um livro. Mas não foi qualquer livro, foi, provavelmente, o livro de 2015. Um livro que falou tanto de mim que tive medo, claro que com ressalvas né porque Esther tem problemas sérios. Um livro sem palavras, tocante, doído e que me deu umas das quotes mais minhas e que coube tanto com o que sentia numa época cuja dúvida em fazer jornalismo e desistir de medicina imperava em mim:

"As pessoas são feitas de nada mais que poeira, e eu não conseguia entender como tratar de toda aquela poeira era melhor do que escrever poemas que as pessoas lembrariam e repetiriam pra si mesmas quando estivessem tristes, doentes ou insones" A redoma de vidro

Não sou a Esther, não quero ser ela, mas tenho um pouco do que ela é, de tudo o que sente dentro de mim. Vivo dentro dessa redoma, cheia de dedos e cambaleando um pouco nessa loucura que é a vida, que é crescer e me vejo às vezes perdida dentro de silêncios, dos meus silêncios. E me perco no meio desse tanto de incertezas, de pessoas e do tamanho desse mundo ao redor do meu próprio mundo. Na imensidão que é viver, que é conviver e ser quem somos - sem saber, na maioria das vezes, no que consiste ser quem a gente é. Mas eu vou tentando, vou caindo, seguindo - com medo sempre -, só que às vezes me deparo com a linha que separa minha redoma do mundo real e aí o bicho pega, porque tudo que quero fazer nesse momento é recolher minhas coisas, deitar na minha cama e pedir por favor ao universo que me deixe quietinha no meu canto. Porque é mais cômodo e fácil, obviamente.

Acontece que, ainda bem, existe um mundo além desses muros e eu preciso transpassá-los pra poder alcançar o melhor e também o pior, inevitavelmente, porque viver é isso. Confesso que quando resolvo colocar um pouco meus pés pra fora dessa linha que construí pra mim mesma, me divirto demais e tenho vontade de destruir todas essas paredes ao meu redor. Mesmo com todo medo, mesmo com as incertezas decorrentes dessa escolha. É delicioso se permitir, seguir o vento, abrir as asas. E eu preciso, preciso, preciso (três vezes pra enfatizar) sentir tudo isso, sentir o vento no meu rosto, meu joelho machucado, minhas mãos calejadas de tanto tentar, de tanto cair e não desistir. (Agora, nesse exato momento) Acho inadmissível o morno, não quero e nem me agrada.

É aí que entra 2016 e começos. Nesse ano eu decidi destruir minha redoma, decidi fazer as escolhas que me desafiam, me provocam. Resolvi dar uma chance a mim, a quem quero ser, às minhas escolhas. Já comecei a quebrá-la, pouco a pouco, quando me inscrevi e decidi fazer outro curso, além de medicina; quando já no primeiro mês resolvi sair pra comemorar a vida e quando decidi começar a preencher minha parede em branco - metafórica e literalmente. E por aí vai, e estou indo - com medo mesmo, muito, mas me divertindo horrores com a perspectiva de enxergar cada dia mais o bom e o ruim de se estar no mundo.

Desse modo, eu começo; inauguro o blog esse ano, inauguro uma possível nova eu, um novo começo nesse ano bissexto e desejo que o caminho seja cheio de curvas porque em cada uma delas, descubro mais um pouco de mim mesma. Espero que continuemos juntos nessa jornada cheios de esperança e doidos pra ver um pouco mais do que ainda está por vir.

Obs: Já vou logo adiantando: eu desisto da medicina, mas ela não desiste de mim. Então não fui pra área das humanas ainda, fui pra odontologia. Mas, novamente, medicina ainda não desistiu de mim.