08 outubro 2015

Entre farmácias, um peso

Uma nuvem negra paira sobre a minha casa, essa é a única explicação pra todas as doenças e doentes atingidos essas últimas duas semanas na minha família. Há uma semana, estava tomando um antibiótico dos infernos que me deixava com cara e disposição de zumbi, essa semana meu pai está com bronquite, minha irmã com dengue e minha mãe resfriada. A única que se salvou dessa onda de coisa ruim foi Amanda, que até agora não teve nada e torçamos pra que continue assim.

Com isso em mente, percebam que nessas últimas duas semanas passei muito tempo em farmácias, fui várias vezes e em inúmeras diferentes. E algo lá, em todas elas, me chamou atenção. Já queria falar sobre há uns dias, mas a preguiça não me deixava e o remédio realmente me deixava com ares zumbilísticos. Como parei recentemente de tomá-lo e já estou melhor, embora agora esteja numa crise alérgica (POIS É, ACHO QUE PRECISAMOS BENZER ESSA CASA), resolvi parar e escrever algo que me chamou atenção (incomodou) lá pela terceira vez que fui à farmácia. Veja bem, já tinha percebido na primeira vez que tinha ido, na segunda, mas só na terceira me dei conta que ali existia um problema sério.

Em todas as vezes que fui nesses locais comprar um dos inúmeros remédios que comprei nesse período, encontrei uma balança. Mas não somente encontrei uma balança, encontrei suspiros de alívio quando alguém percebia ter perdido peso, ou exasperações por ter ganhado 500g. Em todas as vezes que fui a uma farmácia, encontrei mulheres, principalmente, entrando ali só pra saber seu peso, torcendo ter perdido uns quilinhos a mais, sofrendo por não ter perdido nada ou, pior, por ter ganho um pouquinho por causa de uma coxinha fora do horário. Escutei de tudo. Não nego que encontrei homens fazendo o mesmo, mas mais ou menos entre 10 pessoas ali entregues a uma balança, apenas 2 eram homens. E foi aí que abri meus olhos e pensei, aí tem uma coisa muito problemática.

Não me iludo dizendo que não sabia, lá no fundo, disso, nem que a maioria das mulheres tem uma quase paranoia com a busca pelo corpo dentro dos padrões e que isso está tão enraizado em nossas mentes que qualquer um está vulnerável a pensar ou agir dessa forma em algum momento da vida. Nada disso é novidade pra ninguém, convenhamos. Mas saber disso antes não torna menos estarrecedor ver-se de cara com todo esse controle, quase que discreto, que uma balança exerce nas nossas vidas. Ali, ao contar centenas de pessoas entrando e saindo apenas pra se pesar.

Dia desses, li um post da Tati falando sobre o dia em que ela resolveu sair de shorts, apesar de todo sentimento meio avesso às pernas finas dela. E me identifiquei muito com essa situação, inclusive contei nos seus comentários que desde algum tempo atrás, parei de usar short, saia, vestidos curtos porque tinha vergonha das minhas pernas e só mais recentemente decidi voltar aos poucos a usá-los, ao mesmo tempo que começava a abraçar meu corpo como ele é, incluindo nesse processo minhas pernas finas.

Tecnicamente, estou dentro dos padrões da sociedade; porém sempre vai existir algo que estará faltando, uma coxa mais grossa, mais peito, uma barriga mais seca, um pé menos torto, um cabelo mais liso, uma bunda maior. Independente de todos meus esforços e os de qualquer pessoa, sempre vai faltar algo. Para a sociedade, nunca seremos perfeitas, nunca seremos suficientes e, consequentemente, também nunca seremos pra nós mesmas. Até o dia em que resolvermos desconstruir, aos poucos. Mas desconstruir não é fácil e muito menos rápido, não é fácil nadar contra a correnteza, é? Não é fácil acordar se achando linda quando a sociedade diz que celulite é horrível, ou quando diz que nariz bonito é nariz afilado e você não tem isso. Quando existe uma voz lá fundo enumerando e julgando cada centímetro "meio errado" em ti, comparando, etiquetando todas características tuas que não batem com aquela modelo maravilhosa. É pesado, é doído.

Li um tempo atrás um texto que dizia que todas essas dietas e essa loucura toda das mulheres pela busca incessante do corpo ideal, do que se deve ou não comer pra não ganhar um grama a mais que o necessário, é mais uma forma de controle que exercem sobre nosso gênero. Para nos diminuir, nos controlar através da comida, através de toda insegurança que um "corpo não perfeito" traz consigo. Daí me lembro de Foucault, e daquela música da nação zumbi, que pode sim encaixar um pouco nisso aqui. "E com o bucho mais cheio comecei a pensar que eu me organizando posso desorganizar". E tenho vontade de chorar. Porque quando eles tocam, machucam, ditam regras pro nosso corpo, nos diminuem, nos murcham, exercem poder sobre quem somos através dele, eles conseguem nos manchar na alma, eles nos dominam, nos disciplinam. Somos almas limitadas, normatizadas, presas numa caixinha da padronização coletiva, portanto.

Cansa, sabe? Cansa viver num mundo que inconscientemente (espero eu) controla as mulheres através de inseguranças, cansa viver num mundo que não abraça as diferenças, pelo contrário, as julga, desrespeita, ri delas. Cansa não me aceitar completamente, fico triste só de pensar que não me amo com todas minhas particularidades, ainda. Que não amo completamente minhas estrias, minhas pernas finas, meu nariz e tenho a sensação de que existem muitas coisas que podiam melhorar. Não quero ser assim, não quero me amar com ressalvas, pensando sempre em possíveis melhorias, quero me amar por quem sou, sem pensar muito a respeito de todos os padrões aos quais não me encaixo. Na verdade, não queria que existissem padrões, afinal não somos produtos, somos diferentes, somos esquisitos, humanos.

Não sei, talvez seja paranoia, talvez eu esteja fazendo tempestade em copo d'água. Talvez a gente se ame, por isso olhamos tanto nossas balanças, nossas gorduras a mais, nossos calos. Ou talvez o mundo esteja ao contrário mesmo, vai ver estamos trocando tudo, nos vendo todos tortos. Então, se esse for o caso, acho que está na hora de fazermos algo a respeito, não acho que esse caminho que estamos trilhando seja saudável e, muito menos, o certo. Assim, como forma de quebra, de repensar, de abraçar mais meu eu, comprei dois shorts, estou em busca de vestidos e não vou parar por aí. Afinal, numa sociedade que diz que está tudo errado em sermos nós mesmos, levantar a cabeça e fazer exatamente o contrário ao nos amarmos é uma revolução e tanto, não é mesmo?

Repito, porque é necessário, não é fácil; coloco o short, depois penso um pouco mais a respeito e troco por uma calça, mesmo com o calor de Recife. Não encaro minhas pernas no espelho por muito tempo, olho no espelho milhares de vezes, olho as fotos de pessoas maravilhosas e me imagino como elas, penso que poderia fazer uns exercícios ou sei lá o que mais. Um dia de cada vez. Aos poucos, algo vai mudando, despertando, tem dias que vou me achar linda, outros nem tanto. É a vida. O que não podemos, de jeito nenhum, é deixar de seguir, desistir e desacreditar de quem somos, de como somos, com todas as imperfeições e coisas fora do padrão. Aos poucos vou percebendo que a revolução começa dentro de mim.




Lembrei que já havia lido um texto maravilhoso sobre o assunto no Lugar de mulher e, por isso o deixo aqui. Não encontrei o outro que li, se encontrar um dia desses, atualizo o post e coloco por aqui. 

7 comentários:

  1. "Afinal, numa sociedade que diz que está tudo errado em sermos nós mesmos, levantar a cabeça e fazer exatamente o contrário ao nos amarmos é uma revolução e tanto, não é mesmo?" Sim! Obrigada por isso <3

    Ai, o patriarcado e o capitalismo, juntos nessa missão eterna de fazer com que todas as mulheres odeiem a si próprias. E umas às outras. Não é fácil perceber isso. Menos fácil ainda é se levantar contra isso, por isso que toda vez que leio um texto como esse seu, parece que acende uma esperançazinha aqui dentro, sei lá, como se estivéssemos caminhando, mesmo que contra a correnteza, em direção a um mundo que nos aceite como somos e nos permita o amor próprio. Adorei!

    Beijo

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  2. De um ano pra cá dei uma engordada e desde então parei de usar muitas roupas de que gosto porque "ai, pernas, ai, braços gordinhos". O que é uma palhaçada, mas se a gente parar pra refletir... muito injusto isso. Porém, é algo que infligimos a nós mesmas, infelizmente. Temos de desconstruir, sim. É difícil, mas creio que um dia a coisa fluirá.

    P.S.: Senhor, é melhor benzer essa casa mesmo, hein! Melhoras a todos!

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  3. Melhoras pra você e pra sua família <3
    Nem acreditei quando vi você incluir meu post ali, porque sinceramente quando o fiz foi em um momento tão desabafo que eu nem esperava receber os comentários que li nele, quanto mais ter o prazer de também te ver escrever sobre isso
    Por mais que a mídia e tudo que está a nossa volta tenha a maior culpa nas nossas inseguranças, é tão difícil aceitar que não estamos erradas, mas a sensação de quando você consegue quebrar isso, nem que por um dia ao ano, é tão incrível que faz valer a pena.

    Novembro Inconstante

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  4. Eu tenho uma amiga que decidiu parar de se pesar porque, segundo ela própria, é um absurdo que números ditem tanto sobre nós. Concordo demais, inclusive queria muito parar, inclusive já tentei, mas no final eu sou a mocinha que entra na farmácia pra se pesar e sai de lá chorando ou dando pulinhos de alegria, dependendo do resultado, mesmo que o espelho não me mostre esse resultado. É triste isso. Seria infinitamente mais fácil se eu simplesmente aceitasse que minhas pernas são mais grossinhas, que tudo bem ter bracinho de biscoitera, que eu não preciso pesar 52kg pra ser feliz. Já desconstruí muito desse pensamento e na maior parte do tempo fico numa boa comigo, mas eu estaria mentindo se, numa crise qualquer da vida, eu não me odiasse um pouquinho por não ter as pernas finas (!), por não ter uma bunda menor, por não ter o corpo que a minha mãe tinha na minha idade, por não ter o biotipo das minhas amigas magrelas, loiras e do rosto quadrado. Essa não sou eu. Infelizmente, talvez, mas seria tão mais fácil se cada um pudesse ser lindo do seu jeito, sem precisar se importar com padrões. Que a gente pare de deixar de fazer coisas e usar coisas porque não temos o corpo """""certo""""", porque não somos exatamente como a gente queria. Que a gente olhe no espelho e enxergue ali a mulher incrível que somos, que estamos nos tornando, e que aos poucos fique tudo bem. Não é fácil, mas eu ainda tenho fé que a gente consegue.

    beijo!

    p.s: melhoras pra você e pra sua família <3

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  5. Não bastasse a sociedade definir nosso valor pela aparência, a gente consegue piorar um pouco a situação nos reduzindo a um número - porque 500g a mais sequer são visíveis e fica sendo um segredo entre nós e a balança.
    Enfim, essa semana mesmo eu postei sobre como os padrões da moda não atendem a ninguém. E nos reduz, veja só, a outro número. Entrar em um número maior ou menor do que estamos acostumadas costuma ter esse mesmo poder de mudar nosso humor em segundos.
    Eu engordei bastante nos últimos 2 anos e comecei a fazer exercício para perder peso (ou ao menos parar de ganhar). Pensei em comprar uma balança em um certo momento, mas desisti da ideia porque imaginei que desse nunca ia encarar o ato de deixar de ser sedentária como algo positivo para minha saúde. Seria sempre o negócio torturante que faço para emagrecer e uma hora desistiria dessa empreitada. Acho que funcionou, continuo firme na atividade física e às vezes esqueço de me pesar.

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  6. Nossa Beatriz, manda benzer mesmo essa casa ~ que coisa! Melhoras aí para todo mundo. :)

    Quanto à nossa cobrança em relação ao nosso próprio corpo, tenho percebido cada vez mais que isso é uma questão de escolha. Eu escolho ser ou não influenciada por todos esses meios que dizem que ser bonita é X. E o Y gente? E o resto? Temos que sentar e chorar? Jamais.

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  7. Acredito na, mesmo que difícil de ser seguida, ideia de que temos que nos amar e nos aceitar como somos, e se queremos mudar que seja por nós mesmos: pela saúde, ou pra nos sentirmos melhor. Existem pessoas mais acima do peso com todas suas "gordurinhas" que não se incomodam, são lindas para si, não tem problemas de saúde, mas tentam mudar e acabar com toda gordura acumulado ou em local indevido porque é o aceitável. Bem como existem pessoas que são mais magras, como você, e aceitam a si mesmas, mas não são bem vistas pelos outros e por isso buscam academias, dietas, e tudo o mais.

    Eu sempre me aceitei. Mas, ao mesmo tempo, cresci com comentários sobre uma bunda maior de uma prima, os seios menores da outra, as coxas grossas que elas tinham, e quando me via no espelho me achava muito magra e com excesso de barriga. Naquele crescimento rápido da puberdade emagreci muito mas recuperei o meu peso normal e, hoje, quando vejo fotos de quando era criança ou no início da adolescência mesmo vejo que eu era completamente NORMAL. Eu tinha coxas normais, um bumbum normal, eu era normal. A barriguinha era um detalhe e que eu sempre aceitei.

    Porém, com cerca de quinze pra dezesseis anos a coisa mudou e eu resolvi que queria engordar. Cheguei a pensar que eu tinha algum problema de metabolismo porque eu comia muito mas não engordava, o peso sempre oscilava numa margem de erro de 1kg. Aumentei a quantidade de comida no almoço, principalmente arroz. O que antes era uma alimentação normal, onde eu beliscava muito mas comia pouco nessas refeições e nunca havia me atrapalhado (e eu acho que não iria me atrapalhar), ia mantendo meu peso. Porém, em um período de cerca de 6 meses engordei 6kg, hoje vejo fotos e percebo a diferença. Não foi muito perto de outras pessoas, mas no ritmo que eu estava indo chegava facilmente em mais... eu compensava tudo na comida, e mudar esse hábito está sendo muito difícil.

    Com a ajuda a minha mãe comecei exercícios e a melhorar a alimentação e em um mês e meio emagreci os 6kg - férias. Com a volta às aulas e a chegada do vestibular consegui até controlar por um tempo mas voltei a comer sem um devido controle do que e de quando como.

    Com isso, aprendi que eu estava bem. Eu me aceitava, eu tinha um corpo normal e não precisava de mais nada a não ser melhorar a alimentação com frutas e tals por conta da saudade, mas nada estético. Ouvindo comentários de outros cai mais ainda nessa de comer sem controle, e agora a luta é pra não retornar tudo que perdi. A preocupação é com a forma como me alimento que afeta minha saúde e porque eu me sinto bem com o corpo que sempre foi meu, e não esse que adquiri buscando o que outros dizia ser bonito.

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