15 outubro 2015

Professora,


Já não sou mais a mesma. Sei que a maioria das pessoas costuma falar isso, na verdade, todo mundo fala. Porém, não sou mais a mesma que era quando pisei com o pé direito no ano de dois mil e quinze. E grande parte disso eu devo a você, que me ajudou a me tornar quem sou agora. Não teve uma linha que separa onde estou de onde estava, do que pensava, do que acreditava. Mudei aos poucos, sem alarde e sem perceber a pessoa que me tornava. Você, toda terça-feira, me mostrava um caminho novo, um jeito melhor de ser, de me importar e olhar os outros, e pouco a pouco fui me construindo.

Em sua última aula em que estive presente, você nos contou suas esperanças, nos falou do seu maior desejo: nos tocar para que toquemos nossos futuros pacientes. Você queria ser a diferença, a pessoa por trás do nosso olhar de amor, compreensão e humanidade para cada ser humano que chegar na nossa frente, cada ser humano que colocar suas esperanças em quem somos, no que escolhemos pra vida. Não somente médicos, pessoas. Você quis que aprendêssemos a enxergar o sofrimento do outro em um período da nossa vida que a dor nos aflige tanto, a incerteza e o medo estão ao nosso lado a cada manhã de cursinho para que, quando estivermos realizados e conformados com a nossa vida sendo aquilo que tanto lutamos, possamos ainda enxergar a dor de cada pessoa que nos olhar nos olhos (ou quem não olhar também).

Você nos ensinou que quando doemos por dentro, estamos mais suscetíveis pra ver que o outro também sofre. Você nos ensinou que não precisamos vencer sempre, e é preciso ter tempo pra tudo, pra tristeza, pra dor, pra raiva. Não precisamos vencer na vida como nos é mostrado o tempo todo, esse vencer egoísta que esquece as misérias ao nosso redor, que fecha os olhos pra injustiça. Esse ser egoísta cheio de privilégios que é indiferente, que olha, sem piedade, do alto do seu palanque para aqueles que não tiveram a mesma oportunidade. Essa falta de amor e velocidade das coisas, que nos deixa cada dia menos humanizados, mais máquinas. Não, isso não. Com seus alunos não.

Já não sou mais a mesma. Ainda tenho muito o que trilhar, ainda tenho muito a aprender, mas você me ajudou a ser melhor nesse caminho que segui. Você me faz ter certeza que nada acontece por acaso e que estou onde deveria estar. Você me faz ter certeza que agora sim sou humana, agora sim sou uma pessoa melhor, não totalmente pronta, mas mais empática, mais sensível ao mundo fora do meu umbigo. Você me faz ter certeza que esses três anos fora da universidade de medicina foram imprescindíveis pra me tornar uma pessoa diferente, uma pessoa mais consciente, crítica e amorosa apesar de toda dor, de toda incerteza, de toda impaciência pra entrar logo. Talvez eu não fosse quem sou hoje se tudo tivesse sido diferente, talvez tudo tivesse sido mais fácil, talvez eu não tivesse chorado tanto, não ficasse tão perdida, mas, ao mesmo tempo, talvez eu não fosse tão sensível aos outros como sou agora.

E desse jeito eu não queria/quero ser médica (ou pessoa). Não quero ser mais uma que não enxerga quem está na minha frente ou ao meu lado, não quero ser indiferente, inconsciente de toda dor que ainda existe no mundo. Não, esses anos me tornaram quem sou e você me ajudou a organizar isso tudo e ter a certeza do meu caminho, dos meus ideais. Você abriu meus olhos pra esse mundo multi, completo e repleto de diferenças, pra dimensão do amor, em que eu enxergo aqueles que a maioria prefere não enxergar. Um mundo doído, pesado, injusto, mas, ao mesmo tempo, repleto de gente que prefere ter olhos de ver e alma de/para tocar, assim como você. Me deu a certeza de que o amor é maior que todas as coisas, e dinheiro nenhum pode pagar o esmaecimento de uma dor. Dinheiro nenhum pode pagar o olho no olho, o toque, a humanidade em enxergar cada vida como um mundo.

Na verdade, dinheiro nenhum pode pagar a transformação que você ajudou a operar em mim. Poderia dizer que você é maravilhosa, sensacional e incrível - coisa que é -, mas prefiro dizer que você me fez começar a trilhar um caminho para ser um pouco parecida contigo. Amorosa, sensível, compreensível, sem paciência para injustiças, enojada com toda a indiferença, empática e por aí vai. Prefiro dizer que você nos toca na alma, no exato ponto que dói, que machuca, porque só assim passamos a rever nossos conceitos e nosso jeito de encarar a vida. Você nos torna humanos melhores. E por isso agradeço por cada aula, por cada puxão de orelha, por cada discurso que me fez chorar por dentro, que fez eu sair me perguntando "que mundo é esse?". Obrigada por nos chacoalhar e nos mandar, brava, acordar e crescer. Obrigada por  nos beliscar, nos maltratar, e bater na nossa cara perguntando o que estamos e queremos fazer da nossa vida.

Nesse dia dos professores, falo de ti com o coração cheio de orgulho, espalhando pra meio mundo que se todos tivessem a oportunidade de ter um professor ao menos um pouco parecido contigo, o mundo seria um lugar melhor. (Por incrível que pareça, nunca falei contigo olho no olho, mas isso não foi motivo pra que um pedaço de ti não ficasse em mim). Obrigada por ser uma luz em dias escuros, obrigada por nos ajudar a trilhar caminhos melhores, obrigada por nos tornar seres humanos mais humanos e por não desistir da gente. Mas obrigada, principalmente, por não deixar de ser Tereza. Feliz seu dia, feliz você.



(Tereza é professora de redação, mas das professoras mais diferentes, porque ela esculhamba, briga, fica indignada quando falamos besteira, quando alguém propaga ódio ou preconceito. Tereza não é só professora de redação, ela é professora da vida, da dor, do amor. Tereza é luz quando as coisas parecem escuras, ela é amor quando o mundo insiste em ser ódio e intolerância. Ela é mudança, esperança e mais um pouco de amor. Ela mexe, inquieta, abre nossos olhos ao mesmo tempo que cita Fernando Pessoa. Tereza, meus amigos, é flor) 

08 outubro 2015

Entre farmácias, um peso

Uma nuvem negra paira sobre a minha casa, essa é a única explicação pra todas as doenças e doentes atingidos essas últimas duas semanas na minha família. Há uma semana, estava tomando um antibiótico dos infernos que me deixava com cara e disposição de zumbi, essa semana meu pai está com bronquite, minha irmã com dengue e minha mãe resfriada. A única que se salvou dessa onda de coisa ruim foi Amanda, que até agora não teve nada e torçamos pra que continue assim.

Com isso em mente, percebam que nessas últimas duas semanas passei muito tempo em farmácias, fui várias vezes e em inúmeras diferentes. E algo lá, em todas elas, me chamou atenção. Já queria falar sobre há uns dias, mas a preguiça não me deixava e o remédio realmente me deixava com ares zumbilísticos. Como parei recentemente de tomá-lo e já estou melhor, embora agora esteja numa crise alérgica (POIS É, ACHO QUE PRECISAMOS BENZER ESSA CASA), resolvi parar e escrever algo que me chamou atenção (incomodou) lá pela terceira vez que fui à farmácia. Veja bem, já tinha percebido na primeira vez que tinha ido, na segunda, mas só na terceira me dei conta que ali existia um problema sério.

Em todas as vezes que fui nesses locais comprar um dos inúmeros remédios que comprei nesse período, encontrei uma balança. Mas não somente encontrei uma balança, encontrei suspiros de alívio quando alguém percebia ter perdido peso, ou exasperações por ter ganhado 500g. Em todas as vezes que fui a uma farmácia, encontrei mulheres, principalmente, entrando ali só pra saber seu peso, torcendo ter perdido uns quilinhos a mais, sofrendo por não ter perdido nada ou, pior, por ter ganho um pouquinho por causa de uma coxinha fora do horário. Escutei de tudo. Não nego que encontrei homens fazendo o mesmo, mas mais ou menos entre 10 pessoas ali entregues a uma balança, apenas 2 eram homens. E foi aí que abri meus olhos e pensei, aí tem uma coisa muito problemática.

Não me iludo dizendo que não sabia, lá no fundo, disso, nem que a maioria das mulheres tem uma quase paranoia com a busca pelo corpo dentro dos padrões e que isso está tão enraizado em nossas mentes que qualquer um está vulnerável a pensar ou agir dessa forma em algum momento da vida. Nada disso é novidade pra ninguém, convenhamos. Mas saber disso antes não torna menos estarrecedor ver-se de cara com todo esse controle, quase que discreto, que uma balança exerce nas nossas vidas. Ali, ao contar centenas de pessoas entrando e saindo apenas pra se pesar.

Dia desses, li um post da Tati falando sobre o dia em que ela resolveu sair de shorts, apesar de todo sentimento meio avesso às pernas finas dela. E me identifiquei muito com essa situação, inclusive contei nos seus comentários que desde algum tempo atrás, parei de usar short, saia, vestidos curtos porque tinha vergonha das minhas pernas e só mais recentemente decidi voltar aos poucos a usá-los, ao mesmo tempo que começava a abraçar meu corpo como ele é, incluindo nesse processo minhas pernas finas.

Tecnicamente, estou dentro dos padrões da sociedade; porém sempre vai existir algo que estará faltando, uma coxa mais grossa, mais peito, uma barriga mais seca, um pé menos torto, um cabelo mais liso, uma bunda maior. Independente de todos meus esforços e os de qualquer pessoa, sempre vai faltar algo. Para a sociedade, nunca seremos perfeitas, nunca seremos suficientes e, consequentemente, também nunca seremos pra nós mesmas. Até o dia em que resolvermos desconstruir, aos poucos. Mas desconstruir não é fácil e muito menos rápido, não é fácil nadar contra a correnteza, é? Não é fácil acordar se achando linda quando a sociedade diz que celulite é horrível, ou quando diz que nariz bonito é nariz afilado e você não tem isso. Quando existe uma voz lá fundo enumerando e julgando cada centímetro "meio errado" em ti, comparando, etiquetando todas características tuas que não batem com aquela modelo maravilhosa. É pesado, é doído.

Li um tempo atrás um texto que dizia que todas essas dietas e essa loucura toda das mulheres pela busca incessante do corpo ideal, do que se deve ou não comer pra não ganhar um grama a mais que o necessário, é mais uma forma de controle que exercem sobre nosso gênero. Para nos diminuir, nos controlar através da comida, através de toda insegurança que um "corpo não perfeito" traz consigo. Daí me lembro de Foucault, e daquela música da nação zumbi, que pode sim encaixar um pouco nisso aqui. "E com o bucho mais cheio comecei a pensar que eu me organizando posso desorganizar". E tenho vontade de chorar. Porque quando eles tocam, machucam, ditam regras pro nosso corpo, nos diminuem, nos murcham, exercem poder sobre quem somos através dele, eles conseguem nos manchar na alma, eles nos dominam, nos disciplinam. Somos almas limitadas, normatizadas, presas numa caixinha da padronização coletiva, portanto.

Cansa, sabe? Cansa viver num mundo que inconscientemente (espero eu) controla as mulheres através de inseguranças, cansa viver num mundo que não abraça as diferenças, pelo contrário, as julga, desrespeita, ri delas. Cansa não me aceitar completamente, fico triste só de pensar que não me amo com todas minhas particularidades, ainda. Que não amo completamente minhas estrias, minhas pernas finas, meu nariz e tenho a sensação de que existem muitas coisas que podiam melhorar. Não quero ser assim, não quero me amar com ressalvas, pensando sempre em possíveis melhorias, quero me amar por quem sou, sem pensar muito a respeito de todos os padrões aos quais não me encaixo. Na verdade, não queria que existissem padrões, afinal não somos produtos, somos diferentes, somos esquisitos, humanos.

Não sei, talvez seja paranoia, talvez eu esteja fazendo tempestade em copo d'água. Talvez a gente se ame, por isso olhamos tanto nossas balanças, nossas gorduras a mais, nossos calos. Ou talvez o mundo esteja ao contrário mesmo, vai ver estamos trocando tudo, nos vendo todos tortos. Então, se esse for o caso, acho que está na hora de fazermos algo a respeito, não acho que esse caminho que estamos trilhando seja saudável e, muito menos, o certo. Assim, como forma de quebra, de repensar, de abraçar mais meu eu, comprei dois shorts, estou em busca de vestidos e não vou parar por aí. Afinal, numa sociedade que diz que está tudo errado em sermos nós mesmos, levantar a cabeça e fazer exatamente o contrário ao nos amarmos é uma revolução e tanto, não é mesmo?

Repito, porque é necessário, não é fácil; coloco o short, depois penso um pouco mais a respeito e troco por uma calça, mesmo com o calor de Recife. Não encaro minhas pernas no espelho por muito tempo, olho no espelho milhares de vezes, olho as fotos de pessoas maravilhosas e me imagino como elas, penso que poderia fazer uns exercícios ou sei lá o que mais. Um dia de cada vez. Aos poucos, algo vai mudando, despertando, tem dias que vou me achar linda, outros nem tanto. É a vida. O que não podemos, de jeito nenhum, é deixar de seguir, desistir e desacreditar de quem somos, de como somos, com todas as imperfeições e coisas fora do padrão. Aos poucos vou percebendo que a revolução começa dentro de mim.




Lembrei que já havia lido um texto maravilhoso sobre o assunto no Lugar de mulher e, por isso o deixo aqui. Não encontrei o outro que li, se encontrar um dia desses, atualizo o post e coloco por aqui.