17 setembro 2015

Viagem pra o Canadá e os (nem tão) pequenos ensinamentos da vida

Ontem, enquanto conversava com minha irmã e lhe contava que meu ex (hoje amigo) me chamou pra ir com ele pro Canadá estudar, algumas pulgas surgiram atrás da minha orelha. Mas não me dei conta de imediato. Apenas hoje, deitada, esperando a coragem de levantar da cama chegar, descobri uma das coisas mais esquisitas e complicadas de ser dizer em voz alta - ou escrever pra outras pessoas lerem. (Aviso logo: qualquer coisa que sair muito sem jeito e com muita cara de arrogância, me perdoem, não é a intenção)

Voltemos um pouco no tempo. Na escola, sempre fui a melhor da sala, e quando não era, eu competia com quem "conseguia me ultrapassar", claro que a pessoa não sabia disso, mas nunca aceitei ser menos que a melhor. Então quando alguém tirava 10 em física, eu tinha absoluta certeza de que se aquela pessoa conseguiu, eu também era capaz de conseguir e por incrível que pareça eu realmente conseguia. Porque eu me esforçava e estudava bastante; mas não posso dizer que vivia pra estudar. De jeito nenhum. Sempre fui daquelas pessoas que pega as coisas muito rápido, então eu prestava atenção nas aulas, anotava tudo que eu podia e só ia estudar mesmo nas semanas de véspera das provas. Porque sempre fui preguiçosa, tanto é que quase nunca ficava em recuperação e toda vez que ficava, sim, eu chorava. Enfim, em resumo, nunca tive grandes problemas em ser a melhor da sala, tirar as melhores notas e ser a mais adorada dos professores. Essa era minha realidade.

Então, digamos que eu sabia do meu potencial, e acreditava que dali daquela sala se alguém conseguiria o melhor emprego ou as melhores oportunidades, baseadas em estudo, essa pessoa seria eu. Digamos que eu me tinha em alta estima, o mundo estava praticamente nas minhas mãos. É difícil dizer isso, mas nunca me achei ordinária, apesar de todos os momentos (todo mundo tem) de baixa autoestima, de achar que nada vai dar certo ou que minha vida era um desastre e eu um fracasso, eu nunca me achei uma pessoa qualquer. Sim, soa arrogante, eu sei, mas se não puder ser sincera aqui, onde serei?

Preciso confessar outra coisa: coloquei um ultimato na minha mente, se não passar esse ano em medicina, não irei passar mais um ano em cursinhos. Preciso seguir em frente e agora me sinto atrasada, parada e etc, então decidi que se não passar, colocarei jornalismo, que é uma das minhas segundas opções (Tenho várias coisas que gostaria de fazer). Não tem nada certo ainda, não contei pra quase ninguém isso, meus pais não sabem e afins, mas me dei esse ultimato, porque me dei conta que a vida passa muito rápido, e as escolhas estão aí para serem feitas. Pode ser que não dure nem 1 mês no curso, talvez odeie, talvez ame, não sei, só sei que preciso tentar todas as minhas possibilidades. Preciso me descobrir, me entender, e dar uma chance a mim mesma pra descobrir coisas novas. Enfim.

Hoje me dei conta que nunca quis ser ordinária, na verdade, nunca achei que poderia ser. Sempre achei que a vida havia me reservado um futuro brilhante, uma carreira brilhante, amigos brilhantes, tudo maravilhoso e nada menos que sensacional. Sim. Talvez acreditasse que nasci com a bunda virada pra lua, o que poderia dar errado? Estava tudo escrito e nada poderia me segurar, o mundo estava ali pra ser conquistado. E eu seria a pessoa responsável por conquistá-lo RISOS. Hoje me dei conta que estava esperando a vida de repente acordar e dizer: "opa esse tempo todo estávamos brincando com você, aí está sua vida perfeita. Pode aproveitar" Só hoje me dei conta que me pus em tão alta estima ou me acostumei em ganhar sempre, provavelmente sem nem perceber, que cruzei os braços chateada porque as coisas não aconteceram do jeito que eu queria logo no início e estava esse tempo todo esperando uma redenção da vida para comigo. MAIS RISOS.

Demorei três anos pra perceber quão arrogante fui e talvez ainda seja, demorei três anos pra descobrir que minha bunda não ta virada pra lua, que minha vida escolar nem importa tanto assim, que a vida nem é uma competição por notas melhores e eu não sou melhor do que ninguém só porque conseguia tirar 10 em física. E agora me dou conta que praticamente esperei a aprovação em medicina cair no meu colo, porque convenhamos, em nenhum desses três anos tentando vestibular, me esforcei realmente o que poderia ter me esforçado e o que deveria pra entrar num curso tão concorrido. Novamente, eu estava esperando a vida se redimir comigo e entregar minha vaga no meu colo, pedindo desculpas por ter demorado tanto. Mas ó, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos, não to aqui pra ser mimada, na verdade, ninguém, e muito menos o mundo, deve nada a mim e eu nem devia precisar falar esse tipo de coisa, porque isso é óbvio né, só que aparentemente não. (Temos essa mania de achar que o mundo, as pessoas, todo mundo tem que ser legal com a gente, tem que nos ajudar e fazer com que as coisas deem certo sempre (E isso eu sei que não se restringe só a mim)).

Mas, novamente, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos e as pessoas não estão nesse mundo pra nos agradar, não importa quão maravilhosos somos, como incríveis e sensacionais (na nossa cabeça). O mundo, pasmem, não gira ao nosso redor. Como diria um professor, a Terra vai continuar a girar se tirarmos todos os humanos daqui, se a nossa espécie for extinta, o mundo não vai parar. Claro que somos importantes e etc, mas não somos sempre (ou nunca) o centro do universo. E tá tudo bem né.

Depois dessa descoberta, me sinto meio esquisita, porque to me achando bem ridícula, se querem saber. Meio sem noção também. Mas ó, acho que me descobrir desse jeito e expor esse meu lado por aqui já é um avanço, não sou perfeita e preciso abraçar isso em mim. Todo mundo é meio ridículo às vezes. Como não me transformei ainda, afinal as coisas não acontecem num passe de mágica, esse texto não tem uma conclusão, porque ainda não descobri qual seria esta. Porém, com essa descoberta, começo a aceitar e entender que não preciso e não quero vencer na vida, não com todas essas noções que tive, ta bom ser uma pessoa simples, não querer ser a melhor sempre e etc (Não to falando que não devemos ter ambições, mas que nem tudo é sobre vencer e tudo bem) e ser ordinária, portanto, nem é das piores coisas.




Observação: Estava aqui pensando que nunca me encaixei em pessoa de 'exatas/humanas/saúde', sempre fui muito a mescla disso tudo, daí lembrei do teste do pottermore e de como eu também seria uma verdadeira sonseriana com tudo isso que acabei de falar. Ou seja, sou uma pessoa meio híbrida, meio de tudo um pouco.



7 comentários:

  1. Bia, me senti abraçada por esse texto e, ao mesmo tempo, com muita vontade de te abraçar. Ao contrário da sua previsão, não te achei nada arrogante porque eu pensava exatamente igual. Falei recentemente em um texto que ser inteligente era meu charme. Na escola eu dava conta das coisas. Eu sabia fazer. Eu tirava nota alta - às vezes sem nem me esforçar. Mas o fato é que a faculdade cai no nosso colo como uma bomba e, se ela já não for "real world" o suficiente, espere o mercado de trabalho e aí sim você vai ser obrigada a entender de uma vez que "o que foi prometido ninguém prometeu", e cair do cavalo é tão ruim quanto ótimo, porque por mais terrível que pareça, parece que esperamos a vida toda pela vida real, mesmo enquanto achamos que ela vai ser um conto de fadas porque a gente obviamente não é ordinário e merece muito do mundo. A-HAN.
    Entendo demais sua epifania - com uns anos a mais na bagagem.
    Beijos!!

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  2. Outro dia estava pensando sobre algo parecido com o que você disse nesse post. Sobre como, quando somos mais jovens, achamos que TODAS as nossas decisões vão impactar MUITO nossa vida futura. Só mais tarde nos damos conta de que as conquistas e as derrotas desse passado (tão perto e tão longe ao mesmo tempo) muitas vezes não significam nada na nossa vida adulta. NADA. Difícil aceitar às vezes...

    http://naomemandeflores.com

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  3. Nossa, nossa, nossa, Beatriz!!! Não faça um texto desses sem que eu esteja preparada psicologicamente pra ler! Sério.
    Posso dizer que eu sei EXATAMENTE o que você está dizendo? Porque eu sou assim também. E nem digo que fui não, eu sou assim, por mais que eu tente mudar eu ainda me sinto uma pessoa muito especial e que um dia as coisas vão cair do céu. um dia. Mas ao mesmo tempo estou enxergando bem que não é assim, que daqui a pouco estou com vinte, trinta, quarenta anos e deixei tudo passar porque esperava que os meus sonhos já estavam traçados nas estrelas, sei lá. Muito louco isso, né? E é engraçado ver que outras pessoas se sentem assim também. Mas vamos melhorar e seguir a vida. Pelo menos não estamos tendo essa noção "tarde demais" né?

    Beijos!!!

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  4. Eu nem tinha terminado de ler seu post e já mandei o link pra uma amiga. Terminei e guardei o link como um lembrete pra mim mesma também. Não te achei nada arrogante mesmo porque acho que isso não é totalmente nossa culpa: a gente cresce sabendo das facilidades que temos e ouvindo que isso vai ser maravilhoso etc só que, né. Praticamente estamos na média de todo o resto. Eu tenho tentado me lembrar principalmente sobre a parte da competição: ninguém precisa estar constantemente competindo, ninguém precisa superar o outro porque não é isso que conta. Nem precisamos ser as melhores pessoas pros outros. Precisamos nos fazer o melhor e nos satisfazer. Acho que perdemos tempo demais tentando conquistar o olhar de aprovação alheio e isso faz com que nos distanciemos de nós tanto, tanto. Você tá certíssima sobre se dar chances. É isso que importa.
    Eu tô apaixonada por esse texto e pelo blog <3

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  5. Será que eu me identifiquei? Será? HAHA, totalmente! ♥

    Acho que dá pra dizer que toda minha vida acadêmica foi exatamente assim, melhor aluna da turma, competia com o colega sem ele saber e simplesmente tinha a certeza de que meu futuro seria completamente dourado, afinal, o que poderia dar errado para uma aluna nota dez? Ah, bem, só a vida mesmo! Depois que a gente termina a faculdade e cai no mercado de trabalho sem saber muito bem como é essa vida real, é que a gente sente o baque. Mas te digo que é bom a gente acordar e sair dessa bolha, sabe?, tem muita coisa inesperada para acontecer, e isso dá o colorido à vida.

    E, só pra constar, não te achei arrogante coisa nenhuma! HAHA, você é uma querida, isso sim. ♥ ♥ ♥
    Beijo!

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  6. Nossa, sim. Tipo, eu meio que vivia numa ilusão. Eu sempre fui a "melhor" da turma ante de ir pro ensino médio e entrar num Instituto Federal e isso foi meio difícil de encarar porque até hoje inclusive eu me sinto meio lixo já que eu provavelmente só era a melhor da turma porque a situação era favorável. Ok, eu me esforçava, não tinha aquela dificuldade nas matérias (hoje em dia só em exatas, mais especificamente física), só que pelas escolas que eu estudei acho que nunca precisei me esforçar muito. E provavelmente me sairia melhor atualmente se fosse menos preguiçosa e procrastinadora (o mal do século, meu deus).
    Recentemente me vi tentando aceitar que provavelmente vou ter que fazer faculdade na cidade em que moro mesmo. O ensino superior daqui creio que não é ruim, mas acontece que eu sempre sempre sempre me imaginei divando em outros ares (e realmente tem universidades melhores fora daqui nas quais eu queria poder estudar), na minha cabeça eu merecia isso porque eu era inteligente especial etc. Acho que é porque essa era única qualidade que eu via em mim, sabe, que me caracterizava: a inteligência. Só, que, olha que coisa, eu não sou tão inteligente assim. E agora? Talvez eu não seja capaz de passar pra universidade que eu quero, só que além disso há a questão financeira que me impede e muito de me mudar para estudar, sabe? E eu sempre fui pobre, só que de algum jeito eu esperava que as coisas mudassem, porque "poxa as coisas mudam". Bem, não mudaram tanto assim e cá estou aceitando minha sina e vamo que vamo.

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  7. Acho que esse é o grande problema da nossa geração. Sei parece um pouco forçado falar ~da nossa geração~, mas a maioria das pessoas se sentiu traída pela vida quando virou adulto e colocou os pés no mundo real exatamente por esperar demais de tudo, sabe? Eu não era exatamente uma aluna exemplar, não tinha a menor paciência de estudar e só tirava nota boa naquilo que eu realmente gostava. Eu saí do colégio mais cedo porque passei no vestibular no meio do terceiro ano. Nossa, né? Eu também ficava pensando "nossa, nossa", mas daí eu percebi que aquele curso não era pra mim e daí passei em mais dois vestibulares, sempre pra cursos diferentes e cursos mais difíceis do que o anterior, e de repente eu percebi que isso tudo dissesse muito menos de mim do que eu realmente acreditava. Que eu não sou boa porque passei no vestibular dito mais difícil, ainda que 3 vezes; que eu não sou melhor do que ninguém e, talvez o mais difícil, que minha vida é especial sim, mas que isso não significa que eu vou ser uma rockstar ou uma grande cineasta com 200 Oscar embaixo do braço, sabe? É mais ou menos como naquela música do Legião: "o que foi prometido, ninguém prometeu". Dói quando a gente percebe isso, mas acho que com o tempo fica mais fácil lidar.

    beijo!

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