29 agosto 2015

29/31 - Não sei o que dizer

Quando fui fazer meu teste do Pottermore, tinha uma pergunta que me questionava o que eu não gostaria que as pessoas pensassem de mim: covarde, ignorante, ordinário e egoísta. Olhei aquelas opções e tive absoluta certeza da minha resposta: eu não queria que me achassem egoísta, com certeza. Ignorante sei que sempre vai ter alguém que me achará, até porque sou em vários assuntos; covarde, todo mundo é um pouco; ordinário, muita gente que não me conhece ou até me conhece sabe que sou e talvez eu seja mesmo, e isso nem é das piores coisas. O problema, meu maior medo é, por um momento sequer, parecer ou, pior, ser egoísta.

Morro de medo de ser egoísta, me perturba me imaginar ignorando todo sofrimento ao meu redor, me perturba não ver as pessoas, não sentir empatia. Não to dizendo aqui que sou totalmente empática e caridosa e um anjo na terra, longe disso, mas tento muito e o tempo todo não manter minha vida girando ao redor do meu umbigo, tento o tempo todo olhar as outras dimensões, outras vidas. Perceber que sou muito privilegiada e nem todos são, perceber que existem muitas pessoas sofrendo, com fome, sem ter onde dormir, onde descansar a cabeça, sem pai, sem mãe, sem nada. Eu preciso perceber isso, eu preciso sentir isso, mesmo que doa mais que uma facada, mesmo que minha vontade seja de não viver em um mundo cheio de coisas ruins desse tipo, um mundo de injustiça e desigualdade. Apesar da dor, eu preciso sentir isso. Porque no momento que eu não sentir as pessoas ao meu redor, não quero estar viva. No momento que eu deixar de chorar por uma mãe que perdeu seu filho, ou pelos cachorros abandonados nas ruas, pelas pessoas esquecidas pela nossa sociedade, por tudo que não é, mas deveria ser, por todo o sofrimento alheio, pode me levar, porque não quero mais viver assim.

Há um tempo atrás, quando eu era muito tímida e fechada dentro de mim, minha irmã me falou uma coisa que me tocou muito de um jeito perturbador. Ela me chamou de indiferente, fria e calculista. Apesar de não lidar bem com críticas, de me doer inteira só de pensar que poderiam me chamar de burra, feia, esquisita ou sei lá o quê, escutar que eu poderia ser indiferente me rachou por inteira. Ela pode não saber, mas aquilo que ela falou eu nunca poderei esquecer. Do meu maior medo, minha irmã me chamou. Não, eu não queria ser indiferente, não, ser indiferente me mataria. Então tentei enxergar o que ela estava enxergando pra entender o porquê. Fui aos poucos percebendo que eu vivia muito nesse meu mundo e não gostava de sair dele, por isso eu me comportava como uma pessoa indiferente, coisa que estava longe da verdade. Enfim, fui crescendo e percebendo que nunca mais gostaria de ser chamada de algo parecido, então fui mudando aos poucos. Hoje digo que sou sim egoísta, mas faço o possível pra ser menos a cada dia. Porque hoje eu sinto, sinto demais as pessoas e preciso senti-las e fazer muito mais por elas.

Por isso fico esgotada quando assisto um documentário que me estapeia e me diz que a roupa na liquidação, na fast fashion onde compro, pode parecer muito barata, mas ela tem um custo muito maior do que eu possa imaginar. Fico esgotada emocionalmente quando vejo as condições do(a)s costureirxs que fazem a minha roupa, pessoas essas que vivem com míseros trinta dólares por mês, pessoas essas que não conseguem manter seus filhos com o dinheiro que ganham, pessoas que apanham quando reivindicam melhores condições de trabalho.Vilas, povoados repletos de consequências dos resíduos tóxicos das fábricas têxteis que fazem a minha roupa, crianças com retardo mental, inúmeras pessoas com câncer. Tudo isso pra alimentar essa indústria de moda que torna tudo cada dia mais barato (para nós consumidores) e reciclável nessa liquidez das nossas vontades (Um dia quero essa blusa, na próxima já quero outra e agora a primeira que comprei já nem tem mais graça e por aí vai).

O buraco é muito mais embaixo. Compro aquela roupa da Zara, vejo lá na etiqueta que foi feita no Camboja e pra mim tudo bem. Muito mais fácil não saber o que aconteceu e como aquela roupa chegou até ali, mais cômodo, eu fazia isso, confesso. Até que assisti a "The True cost" e agora ficou impossível pensar nas minhas roupas, nessa indústria têxtil do mesmo jeito que antes. Não posso pensar do mesmo jeito, ainda não tenho certeza do que farei com toda essa informação, ainda não sei como comprarei. Confesso que por enquanto não tenho a mínima vontade de comprar alguma coisa, mas sei que daqui a pouco eu terei e preciso decidir e rever o meu modo de comprar, de consumir, Preciso arcar com as escolhas que faço, com os locais que consumo, não posso, logo eu que nunca quis ser chamada de indiferente, me tornar indiferente àquelas pessoas que sofrem, enquanto eu fico aqui felizinha porque comprei uma saia por 30 reais.

Fico triste por descobrir todo esse egoísmo por trás do nosso consumismo, que, sinceramente, sem olhar direito, não parece prejudicial pra ninguém, talvez só pra nós mesmos; mas é e muito prejudicial, desumano, inconsciente. Não foi fácil descobrir isso tudo, confesso que sabia das condições de trabalho na China, e de outros produtos que vejo por aí, mas nunca pensei que isso estaria tão perto de mim, no meu guarda-roupa. Não daquele jeito, não com bebês deitados no chão enquanto suas mães trabalham, não com acidentes de trabalho mortais, não com toda essa rede desumana por trás. Não sei o que pensar, não sei o que sentir, preciso de um tempo refletindo isso tudo que assisti. Tenho medo, tenho medo por todas aquelas pessoas, não sei o que fazer, não sei o que posso fazer. Precisamos fazer algo. Preciso fazer algo. (E não to tentando abraçar o mundo todo, mas to tentando pensar em algo que eu possa fazer no meu mundo, ao meu redor que seja uma gota, mas seja algo).




Pra quem quiser assistir, tem na Netflix e no Popcorn 

Um comentário:

  1. Ei Beatriz. Muito bom esse texto, me pegou desde o início, quando achei que você também ia falar sobre sua casa de Hogwarts e depois me tirou mais um pouquinho o rumo de casa quando entrou no tema sério. E também procuro ser uma pessoa melhor e mostrar que não sou indiferente a isso, mas ainda caio nas tentações erradas de entrar na Zara e comprar alguma coisa, sabe? É realmente muito fácil se acomodar nas facilidades e privilégios e fingir que não sabe o que acontece para que aquela roupa esteja ali a 50 reais. Vou ver se assisto esse documentário ainda essa semana e tomo mais vergonha na cara.

    Beijo!

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