22 agosto 2015

22/31 - A calça jeans da minha vida


Gosto que as coisas durem. Principalmente coisas que amo muito, quero que elas durem um bom tempo, quiçá pra sempre ou pelo menos enquanto ainda houver vida em mim. Por isso, odeio quando amo muito algo e ele se desgasta, quebra, acaba - e agora estou falando de coisas materiais - no ápice do meu amor.

Era uma tarde de dezembro, uma das inúmeras já desbravadas tardes em lojas lotadas de pessoas ávidas por presentes, roupas, calçados, qualquer coisa que coubesse à ocasião: o natal. Prestes a desistir, cansada e tentada a voltar pra casa, novamente, com apenas minha roupa do corpo, avistei de longe ela. Sob holofotes, brilhava toda sua magnitude diferenciada para todos aqueles capazes de enxergar sua preciosidade. Ela não era pra qualquer um. Em sua postura, havia desafio, sua forma gritava que ela era pra poucos e não fazia nenhuma questão de ser de muitos, com toda sua pomposidade desafiadora. Me aproximei devagar como quem desconfia, como quem espera, observa e analisa seu oponente, mas me acovardei e fui dar mais uma volta sem me dirigir diretamente a ela.

Apesar de ter seguido em frente na minha busca,  não me saía da cabeça sua existência. Fui tomada completa e misteriosamente por sua cor, por seu jeito; pensar em qualquer outra coisa era impossível, ela era minha e eu dela, só me faltava a coragem. Dei mais umas voltas como quem prepara o terreno para atacar e dei o bote. Eu tinha certeza da sua perfeição.

Não me enganei, no mesmo momento em que vesti aquela calça de cintura alta e modelo flare, eu me apaixonei por aquela Beatriz do espelho. Aquela simples peça de roupa me completava em tantas maneiras. Ela me fez descobrir partes do meu corpo que eu escondia, valorizou minhas formas, minha maneira de ser. Como um espelho revelador, pude ver meu eu escancarado ao vesti-la; aquela era a minha essência, que ela conseguiu colocar pra fora. Dizem que se vestir é uma forma de expressão, a partir daquele momento tive que concordar.

Extasiada com meu novo eu, não percebi quando minha irmã saiu do provador ao lado do meu com a mesma calça jeans. Olhei incrédula, não acreditei que houvesse algum tipo de complô para tirar-me aquela cujo tecido me encantou, aquela cuja cor conseguiu refletir meus anseios. Não, jamais. Nada nem ninguém conseguiria nos separar a partir daquele instante, estava decidido. Agarrei-me com força, eu e minha irmã discutimos brevemente e acordamos que ela seria minha. E foi. E valeu cada centavo.

Passei meses usando a calça para todos os lugares possíveis; se ela pudesse, viraria parte do meu corpo, uniforme, grudada em mim de tanto que a usei. Ela me fazia feliz. Era só colocá-la que o dia ficava mais florido, eu mais bonita, as pessoas também. Porém, o tempo passa, as coisas mudam, mesmo que não queiramos.

Minha calça preferida desbotou, depois de meses vestindo aquela peça como se ela fosse eu e eu ela, ela me mostrou que até as melhores coisas se esvaem. Não aceitei, pensei em comprar tinta para pintá-la, ou comprar outra igual. Por meses procurei uma que chegasse pelo menos aos seus pés, sem sucesso. Passei da negação à aceitação. Afinal, percebi, ela é só uma coisa, não a fórmula pra minha felicidade. Passamos muitos momentos juntas, não vou esquecê-la jamais, usá-la foi um marco para a meu desbravamento modelístico, foi o meu passe para ousar cada dia mais no meu jeito, no que uso. Ela me abriu portas, deixou marcas, assim como todas as coisas boas que passam por nossas vidas, não a esquecerei. Mas ela também partirá, um dia, como tudo na vida.

Por enquanto, guardo-a, mesmo desbotada, uso-a, porque ela mesma me ensinou a não fazer tudo igual e exatamente como as outras pessoas acham certo. Qual o problema de uma calça desbotada se ela me faz tão bem, não é mesmo? Por ela, ouso; por ela, me encontrei. E jamais a esquecerei.





Por incrível que pareça, não consegui achar uma foto decente, apenas essa que não lhe faz juz.
E a ideia pra escrever esse texto surgiu de um post do blog Bonjour circus
Se não fosse o drama, não seria eu hahahahaha


2 comentários:

  1. Lembrei de duas coisas com seu texto: a primeira é do último jeans que eu comprei, que também é perfeito, maravilhoso, confortável, de cintura alta e eu preciso ficar me policiando pra não sair com ele todos os dias, pra todos os lugares. A segunda é um vídeo da Jout Jout que ela fala sobre um livro de organização, que a autora fala que a gente deve tirar todas as nossas roupas do armário, depois olhar pra uma por uma e se perguntar "essa peça me faz feliz?". Porque é muito isso, né? Algumas roupas simplesmente fazem a gente FELIZ. Acho que a gente devia só usar coisas assim.
    beijos!

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  2. Ahhh, que post maravilhoso! É possível se apaixonar por uma calça jeans? É sim, gente. Recentemente também comprei uma de cintura alta e quero ir com a bichinha pra tudo quanto é lugar. Como é maravilhoso quando rola esse sentimento em relação a peças de roupa, né? Você deixa de se vestir simplesmente pra não cometer atentados ao pudor e começa a se vestir pra sair de casa, ser fabulosa e brilhar na rua. Espero que a calça jeans da sua vida dure muito e que depois dela, venham outras peças de roupa tão incríveis pro seu guarda-roupa! <3

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