15 agosto 2015

15/31 - Sobre como Stephanie Perkins poderia escrever minha vida


De ontem pra hoje, li um livro inteiro, contrariando toda aquela vibe de ressaca literária. Eu tinha certeza absoluta que reagiria desse jeito ao ler esse livro, como se a gente já se conhecesse de outras vidas, sabe? Eu o conhecia, ele me conhecia. Encaixávamos perfeitamente, apesar de toda a minha bagunça momentânea e da minha incapacidade social (literária).

Como esperado, amei cada linha dele (mentira, umas partes não gostei muito), mas pelo todo e parando de pensar um pouco, eu amei ele todo.  Amei as sensações físicas que ele me provocou, coração acelerado, risos incontroláveis de nervoso, mãos geladas de ansiedade e afins; amei até o que de errado achei nele (mentira). Ele foi o terceiro de uma série não série, se é que se pode falar assim. Assim como esse, os outros dois primeiros me provocaram as mesmas reações agradáveis e essa vontade de sair saltitando por aí. Na verdade, uma vontade enorme de viver uma outra vida. 

Não lembro se já postei ou se está nos rascunhos um texto que falo sobre quando terminei de ler Anna e o beijo francês, há uns anos atrás, no ônibus, prestes a descer e andar até em casa no meio da noite. Sobre como aquele livro me provocou reações que nunca pensei algum dia sentir tão vivas, tão fortes. Desci do ônibus com inveja, morrendo por dentro com uma inveja que nunca havia sentido antes, uma dor forte no peito por não ter aquela vida ali retratada, escrita, tão incrível que me fazia querer tanto ter poderes, ter um poder: poder me transportar pra dentro de um livro. Ou, ao menos, ter uma vida parecida com a da Anna, com a de qualquer livro escrito pela Stephanie, na verdade. 

Lembro que passei um bom tempo pensando nisso, sofrendo por dentro porque a vida não é um livro, porque ela não podia ser tão emocionante quanto ir pra França, pra um colégio interno, e viver as maiores aventuras da minha vida, ou ir pra uma road trip, ou simplesmente ficar tão dopada com analgésicos que perderia toda a vergonha de falar com um carinha. É como se o escritor da minha vida tivesse muito ocupado escrevendo outras histórias e não a minha. 

E hoje, ao terminar de ler Isla e o final feliz, senti o mesmo, mas um pouco diferente, porque Isla é muito parecida comigo. MUITO. E ela sofre bastante tempo calada, com seus amigos, sem conseguir o que quer por medo e/ou vergonha até que em um momento da sua vida, ela decide arriscar. Depois de gostar de um cara secretamente por três anos e nem conseguir falar com ele sem gaguejar, ela resolve ver o que a vida tem pra oferecer a ela e arrisca. Isla lia muito, estudava muito, vivia na sua zona de conforto e perdia tudo aquilo que estava em volta dela, porque era mais fácil viver aquelas aventuras do conforto da sua cama do que na vida real, arriscada a levar um fora do mundo. Assim como eu. Vivo tanto dentro de livros que esqueço que eu sou a protagonista da minha história, por mais clichê que isso seja. 

Refleti um pouco mais a respeito dessa vontade enorme de viver dentro de um livro e me dei conta que todos eles só contam uma pequena parte do todo, um pequeno intervalo de tempo de uma vida. Ou seja, Isla e o final feliz durou cinco meses, no máximo, do total de 18 anos; Anna e o beijo francês também e todos os outros livros/filmes que costumam ter esse ar mágico de que a vida é perfeita demais da conta. Não to dizendo por isso que ela é ruim, mas que não é perfeita,  não é repleta de momentos a flor da pele, emocionantes e maravilhosos o tempo todo. Tem dias de tédio também, mas colocar esses momentos num livro ninguém quer né. 

Recentemente escrevi sobre um dia sem graça meu, sobre como nada realmente aconteceu, e parando pra pensar agora: mas não é exatamente isso que é viver? uma sucessão de momentos sem graça, comuns e sem grandes emoções. Ninguém se declarando pra você em pé numa mesa no meio da escola, ou passeios a meia noite com um boy britânico por Paris, ou um cara que faz basicamente uma graphic novel sobre sua história com ele e como vocês passearam por toda Barcelona, ou fizeram coisas inimagináveis o tempo todo. 

Ninguém tem esse tipo de emoção, essas coisas de saltar o coração toda hora, a todo minuto; a vida de ninguém é sempre perfeita e tudo bem, afinal um livro dura apenas algumas páginas, a protagonista demora no máximo cinquenta delas pra amadurecer completamente e resolver sua vida inteira. Eu com 20 anos ainda nem cheguei perto de amadurecer o suficiente, como posso querer que tudo aconteça exatamente igual  e se resolva em apenas trezentas páginas? Se nem mesmo consigo sair desse mundo que crio pra mim, cheio de livros e aventuras de outras pessoas, se nem mesmo posso aceitar que a vida não é um parque de diversão o tempo todo? 

Perceber isso é meio engraçado, tira todo um peso e expectativa de ter uma vida sempre sensacional. Porque  muito tédio ainda está por vir e muita coisa boa também. Mas enquanto a melhor parte do meu livro não chega, eu fico com os da Stephanie mesmo que ta bom.




(Há um mês Em e Dexter são Em e Dexter, dia 15 de julho) 

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