12 agosto 2015

12/31 - Um grito na minha imensidão

Resolvi montar uma parede de quadros no meu quarto, em cima da minha cama. To comprando os quadros aos poucos, quero que cada um deles tenha um significado. Pensando nisso, resolvi colocar minhas mãos a obra, decidi pintar um quadro pequeno. Queria que ele retratasse algo importante pra mim, algo que viesse lá do fundo de mim, que me representasse, sendo arte feita por mim, lógico, mas com um significado maior por trás. Então, li o livro Fale! e quando terminei de lê-lo, decidi que iria me inspirar na capa dele. Não iria imitar descaradamente, porque tinha e ainda tenho consciência do zero a esquerda que sou em artes, pintura então.

Não falei em nenhum lugar o quanto esse livro mexeu comigo. Ele iria mexer comigo de qualquer jeito, porque ele é um "relato" de um estupro e as consequências disso pra vida de Melinda. O livro inteiro é muito doído, é como se ele arranhasse o lugar comum onde me encontro, essa indiferença que maltrata, pessoas que não perguntam, não se interessam e não querem saber e, muito menos ouvir, o que você tem a dizer. Ele mexeu comigo, porque ele dói lá dentro, ele incomoda, ele nos escancara inúmeras coisas que estão erradas.

A dor de Melinda é palpável, inimaginável, porém. Não tenho ideia do que é passar por uma situação dessas, não tenho ideia de como deve ser duro, e sem palavras. Mas Melinda tem e ela nos faz enxergar um pouco dessa dureza, dessa dor que ela enterra dentro dela; ela escancara, ao esconder sua dor aos outros, ao se calar para o mundo, a sua dor. Ela grita, ela pede socorro, pede ajuda, mas ninguém para e simplesmente a escuta. E ela tem tanto pra falar, tanto a dizer, só que ela não consegue. Então ela fecha, costura sua boca, costura aquilo tudo que ela passou em um saquinho dentro dela e o esconde lá fundo onde ninguém possa encontrar e onde ela acha que não irá incomodá-la, até uma hora que ela não aguenta mais. É orgânico, ela precisa falar, ela precisa gritar, ela precisa ter voz mesmo quando alguém tentou tirá-la de dentro dela a força. Então ela fala, ela nos estapeia, nos bate, nos chuta, ela nos entrega e se entrega a si mesma aquela dor. 

Um dos quotes mais sensíveis e magníficos com o qual já me deparei: "Quando as pessoas não se expressam, vão morrendo aos poucos. (...) Vivendo sem ter ideia de quem são, só esperando que um câncer, um infarto ou um caminhão surja e acabe com eles. É a coisa mais triste que conheço". E Melinda vai morrendo por dentro cada dia um pouco mais e ver isso acontecer é das piores dores que esse livro me causou, é desesperador. Mas não só Melinda vai morrendo aos poucos, nós também vamos morrendo cada dia um pouco mais quando não falamos, não gritamos, não nos impomos e nos expressamos. É das piores mortes, das piores dores. E às vezes isso acontece e a gente nem percebe, nós vamos nos calando pras injustiças, pras nossas vontades, pros nossos sonhos e dores e se calar é morrer por dentro. 

Por isso, pra me lembrar sempre desse livro, de Melinda e de nunca calar, pintei esse quadro pro meu quarto. 

Esses negócios em vermelho deveriam ser bocas, mas o vermelho tava em falta então tive que improvisar com o que tinha. Relevem



(Gostei tanto da experiência que resolvi pintar/decalcar/colar aka fazer uma mistura de coisas em outro quadrinho, agora menor, inspirado na minha querida Jane Austen e em um de meus livros preferidos Orgulho e Preconceito)
(Ah e também tem o filme do livro que é O silêncio de Melinda, vale a pena)

3 comentários:

  1. Seu quadro ficou uma gracinha! E é ainda mais lindo depois que a gente sabe de onde veio a inspiração. Demais!

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  2. Adoro pintar quadrinhos. Também, não mando muito bem na pintora, mas me arrisco de vez em quando. Na parede do meu quarto tem quatro quadrinhos, e daqui a pouco vou colocar mais um ali. Adorei da onde veio a sua inspiração. Nunca tinha ouvido falar desse livro antes. Imagino o quanto ele ti tocou, e do contrário, não consigo o quão dolorido é carregar essa dor dentro de sí.
    Adorei o seu quadro. Continue tentando, e colocando pra fora tudo o qui você sente. Faz muito bom pra alma.

    blog-quemsoueu.blogspot.com.br

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  3. Que bonito o significado do quadro pra você ;'(
    Não sabia desse livro, achei interessante, me lembrou um que a mocinha do Ela, Rafaela comentou esses dias, se não me engano o nome é Sorte

    Novembro Inconstante

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