07 agosto 2015

07/31 - Fila dupla e empatia (Ter olhos de ver)

Na minha vida, só estudei em dois colégios. O primeiro era um dos melhores da cidade, onde estudei apenas o jardim; o segundo, onde passei o resto da minha vida escolar, colégio de freiras, não era nem de perto um dos melhores. A maioria das pessoas lá, assim como eu, não eram pobres, mas também não eram ricas.

Depois que terminei o ensino médio, passei por dois cursos e esse ano to no terceiro. Nos anos anteriores, os cursos eram normais com gente normal. Entretanto, esse ano, eu to fazendo o melhor curso da cidade e o mais caro também. Como consequência disso,  convivo com pessoas de classes sociais muito distintas, pessoas que são muito ricas, em sua maioria.

Tem dias que largo de 22h e, por isso, peço pra alguém me buscar (ainda não dirijo). Como minha família tem como característica não ser nem um pouco pontual, sou uma das últimas pessoas a deixar o curso. Enquanto espero, fico observando todo aquele vai e vem de carros e pessoas. Nisso, comecei a devanear e, por fim, ficar um pouco preocupada com nossa sociedade.

Mais especificamente ontem, minha professora de redação falou sobre ética e nos mostrou uma reportagem do fantástico que correlacionava ética e indiferença, nos mostrando que a sociedade atual precisa urgentemente olhar além do seu próprio umbigo. Pensando nisso ainda, observei aquele vai e vem de carros e as filas duplas formadas por carrões que praticamente fechavam a rua.

Não quero afirmar aqui que quem é super rico não olha ao seu redor, mas quero dizer que nossa sociedade ta toda ao contrário, estilo relicário. Independente de ser rico ou não, as pessoas não se veem mais, não se preocupam majoritariamente com o outro, se não vai ser incomodo eu fechar um pouco o trânsito, se meu filho não pode andar um pouco até lá na frente onde tem um lugar vago pra não precisar causar um trânsito infernal. Nós estamos, cada dia mais, esquecendo dos reais valores.

Por essa busca incessante pelo sucesso, por passar no vestibular, por ser o melhor colégio, melhor tudo financeiramente, esquecemos de formar cidadãos conscientes e éticos cujo olhar se volta, principalmente e primeiramente, para o outro. Nós somos pessoas e pessoas possuem sentimentos, não somente minha família, a família do outro também é composta de pessoas e merece o mesmo que eu mereço: Respeito.

Segundo a reportagem, a violência urbana é causada pela indiferença, caso as pessoas reconhecessem a vida e o direito do outro, o mundo seria um lugar sem tantas mortes, assaltos. A reportagem toma como exemplo a quantidade de pessoas no meio das ruas, crianças também e mostra que ao vê-las fazemos questão de virar o rosto para aquela situação, fazemos questão de fingir que aquilo não tem nada a ver conosco.  Mas aquilo tem tudo a ver conosco. Por que será que é tão difícil sair do próprio mundo para tentar, um pouco ao menos, enxergar o de outra pessoa?

Ultimamente, venho espalhando por aí que uma de minhas palavras favoritas é empatia (Capacidade de compreender o sentimento ou reação da outra pessoa imaginando-se nas mesmas circunstâncias.). E descobri que muitos dos problemas que enfrentamos, as intolerâncias, o desrespeito são consequências de uma sociedade que não sabe ser empática, uma sociedade voltada ao eu, ao individualismo. Se nos colocássemos no lugar do outro: sem condições, com fome, sem ter onde dormir, veríamos quão privilegiados somos e descobriríamos que há muito a ser feito, há muito a ser doado, não necessariamente fisicamente, às pessoas que precisam, que estão em necessidades e, pasmem, são pessoas assim como nós e merecem ser respeitadas, repito. 


Fico muito triste com essa distorção de valores em que um objeto, uma posição social é mais importante do que vidas. Fico preocupada quando vejo que as pessoas não enxergam outras pessoas no automático. É como se fosse banal e normal existirem seres humanos em péssimas condições, nós vemos, andamos pelas ruas, mas não enxergamos um palmo além do nosso nariz.  Ainda dá tempo de parar, refletir e ver o que estamos fazendo de errado, é preciso que nos forcemos a "ter olhos de ver", é preciso que nos forcemos a ser empáticos, sentir um pouco a dor do outro, ficar triste por ele estar ali, mas com isso fazer algo pra começar a mudar. E essa mudança começa, sim, com as pequenas coisas, como pensar no outro e não fazer fila dupla pra não atrapalhar o trânsito, o seu filho pode andar um pouco mais, o mundo não gira em torno do seu mundo. 



Um comentário:

  1. Eu vejo muito isso no dia a dia. A empatia é algo em falta. Aliás, se tu fala sobre empatia com as pessoas, elas ainda te corrigem dizendo "tu quis dizer simpatia?". Não, poxa, eu não quis dizer simpatia - se bem que isso é legal também -, eu quis dizer que se tu calçar os sapatos do outro, se tu te colocar em perspectiva, as coisas melhorarão. E se cada um de nós fizer isso, mesmo que seja em pequenas coisas como ser legal no trânsito, o mundo será um lugar melhor.

    Adorei tua reflexão, guria.

    ;*

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