25 outubro 2014

Do meu pai, minha autodescoberta

Sempre demorei a pertencer a algum lugar. Não nasci pronta e, muito menos, desenvolta a saber exatamente o que queria da vida e o que ela queria de mim. Minha vida sempre foi, e ainda é, uma constante construção, um constante empilhar de tijolos, cimento e argamassa. Repito, não nasci pronta pra nada. Talvez tenha tido uns insights que me mostraram, no meio do caminho, aquilo que provavelmente eu não ia querer. Mas nem sempre foi assim. Determinação é quase uma palavra nova no meu vocabulário pessoal e seu conceito começa a ser desvendado a passos tímidos e quase imperceptíveis, mas que andam, e pra frente. Um constante querer e não querer.

Dos meus pais aprendi quase tudo que sabia da vida. E, até alguns anos atrás, tudo que eles falavam e faziam eram o que heróis e todas as pessoas deveriam fazer. E se não fizessem, coitadas, estavam totalmente equivocadas. Ou seja, tudo que eles diziam não era questionado na minha cabeça de jeito nenhum.

Fui do tipo de criança que não fazia nada de errado/nada que contrariasse a opinião deles. Não namorei cedo (na minha época de criança, não existia ficar), porque sequer imaginar meu pai saber que eu, sua filha quase imaculada, estava namorando, ato (na minha mente) quase renegado aos pecadores do mais alto dissabor, me causava ânsias de ser menos amada, querida, respeitada ou, seja lá o que se passa na cabeça de uma criança na terceira série. Até meu primeiro namoro, que meu pai não conheceu o boy mesmo com 1 ano de relacionamento, eu acreditava que estava desagradando totalmente a opinião daquele que me criou e, talvez, sem querer, tenha me computado teorias que me fizeram acreditar em sua predileção por mim como uma mulher (menina) extremamente forte e totalmente independente de homens.

Desde cedo, meu pai fazia questão de me dizer que eu não podia depender de ninguém. De NINGUÉM, o que incluía futuros namorados, amigos, maridos e qualquer pessoa que seja. Talvez ele tenha sido a primeira pessoa a me inserir em pensamentos feministas, totalmente sem querer. Ele me ensinou, inclusive, que eu deveria lutar toda a minha vida para escolher cada passo que eu tomaria e, nunca, jamais, deixar que ninguém escolhesse por mim. Até aí tudo bem.

Só que ele esqueceu de me dizer como não depender dele. Das opiniões dele. Dos seus ideais. Então, eu cresci achando que ele era a pessoa mais sensacional e intocável do planeta, o que em parte é e, ao mesmo tempo, não é; com isso, eu esqueci de me formar em minhas próprias opiniões. Esqueci que entre ele e eu, existem duas pessoas que podem, sim, pensar diferente e não necessariamente uma delas deve estar errada. Esqueci que eu sou alguém que pensa por si só e deve escolher seus próprios passos, assim como ele mesmo me ensinou.

Por isso, quando descobri que, não, nem sempre ele está/estava certo, foi um baque. Minhas estruturas, antes construídas em cima de todos os seus ideais, desmoronaram e transformaram-se em farelo. Meus tijolos caíram e eu não sabia quem era eu. Quem era a pessoa que, mesmo muito parecida, era feminina e totalmente indivíduo a parte do que ele sempre foi. E, foi nesse momento, que eu me descobri nua, exposta, confusa e consciente do meu papel de querer ser exatamente e completamente eu. Ou, o que viria a me tornar.

Cheia de dúvidas, medos, esperanças, dores e amores, comecei a perceber quem queria ser e o que queria me tornar. Me percebi como indivíduo uno e, nesse momento, soube da vida o que ela poderia querer de mim. Bateu um desespero, normal. Mas, a ansiedade de me construir tornou-se maior do que o medo de não bastar. Descobri novos posicionamentos, discuti com ele sobre coisas antes inimagináveis e hoje, feliz, me encontro liberta de alguns de seus posicionamentos e realizada com todos os meus.

E agora compreendo que eu entendia tudo errado. Ele nunca me respeitaria menos por namorar/amar alguém ou discordar dele. Pelo contrário, ele me amaria cada dia mais quando eu resolvesse arcar com todas as consequências da pessoa que sou e com todas as minhas escolhas. Com todas elas, independente de quais. Sempre consciente da minha individualidade e independência.

Hoje, discordo dele com um balançar de cabeças e, juntos, discutimos ideias e nos relacionamos como seres humanos, não como super-herói e pobre mortal. E ele sorri, quando argumento, exaltada, em favor daquilo tudo em que acredito, de orgulho. Ele sorri de orgulho de mim e eu dele, de ter sido criada por ele e por ter, por isso, sido permitida a ser, do jeito que eu quisesse ser.



Obs: Estava lendo esse blog sensacional e fiquei com uma vontade tremenda de dizer obrigada por todos esses dezenove anos em que ele, painho, me ajudou a me construir. Pedro me emocionou como pouca gente o fez e acho que sentimento nunca deve ser guardado, então aí tá, painho, minha gratidão. Nem de longe tão emocionante quanto as palavras de Pedro, mas nem por isso menos verdadeiras.

4 comentários:

  1. Beatriz, me identifiquei demais com seu texto! Eu era exatamente esse tipo de pessoa, a que tinha plena certeza de que absolutamente tudo o que meus pais pensavam e faziam era a verdade universal; que não havia discussões. E não fazia nada que pudesse magoá-los o que podia fazê-los se incomodar - inclusive dispensei meu primeiro namoradinho por medo de meus pais brigarem (e eu já tinha 13 anos!). É uma mudança na vida começar a perceber que não, eles não estão sempre certos e não, não vamos concordar sempre com eles. E claro, passar pelo período de negação ao que eles dizem e alcançar o equilíbrio, de aceitar que eles não estão sempre certos - e nem nós! As pessoas discordam, e é isso aí! hahaha
    Lindo e verdadeiro teu texto!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  2. Que coisa mais linda esse post Beatriz. A gente demora a entender que amor e admiração não necessariamente precisam caminhar de mãos dadas com posicionamento e opinião, né? Emocionante o texto!

    ResponderExcluir
  3. Que post lindo!
    Eu fiquei aqui pensando e não lembro muito bem desse momento em que eu parei e vi que eu e meus pais tínhamos pensamentos diferentes.
    Eu também tinha esse medo de magoá-los e fazer algo que eles achassem errado, mas nunca tinha parado pra pensar nisso rs. Hoje eu penso muito diferente deles, meu pai sempre respeito a minha opinião, mesmo que seja super contrária da dele, e também sempre disse para eu ser independente e arcar com as consequências das minhas escolhas. Acho que isso foi essencial para eu ter o cuidado na hora das minhas decisões e pensamentos.
    E esse blog que você linkou, realmente é lindo. Eu conheci bem no comecinho e nunca mais entrei. Quando vi os textos dele, saí mandando pra todo mundo haha.
    Beijo
    http:/www.deborabp.wordpress.com

    ResponderExcluir
  4. Beatriz, que post lindo. Lindo, lindo, lindo! Me identifiquei bastante com esse seu modo de ver as coisas, porque eu já tive uma relação bem parecida com a minha mãe. E esse momento em que voce se encontra, já capaz de perceber que você pode "existir por aí" sem depender do seu pai é algo que realmente caracteriza uma relação de amor de verdade entre pais e filhos adultos... não existe mais dependência, ou submissão de um dos lados. A gente sabe que pode ser quem quer ser que vai continuar sendo amado, e que pode aceitar que nossos pais sejam diferentes e vamos amá-los mesmo assim. :)
    beijos!

    http://beyondcloudnine.blogspot.com

    ResponderExcluir