04 junho 2014

Tem um mundo dentro do meu talvez

Eu adoro pessoas. E se tem uma coisa que eu adoro em adorar pessoas é poder percebê-las sendo elas mesmas sem mostrar pra ninguém, no escuro, na surdina. Segundo pesquisas que todo mundo já sabe, existem sete bilhões de pessoas no mundo, aproximadamente, e isso me deixa completamente excitada. Porque adoro saber que não conheço todas as pessoas do mundo e, provavelmente, nunca vou conhecer nem a metade, mas fico triste ao mesmo tempo por não poder conhecê-las todas.

Já falei por aqui que adoro andar de ônibus. Porque simplesmente amo observar as pessoas e escutá-las, e no ônibus eu vivo fazendo isso. Eu vivo vendo gente de todo tipo passar pela catraca, entrar pela porta do meio, sorrir pro cobrador, nem olhar pra ele. Gente cantar ouvindo alguma música, fechar os olhos devagarzinho quando o vento resolve entrar pela janela, prender o cabelo, olhar nos olhos, sorrir de alguma besteira, ficar bravo, ficar com cara triste por estar no aperto (físico e, quem sabe, mental), encostar a cabeça no ombro, quando em pé, por estar cansado, fazer gentilezas ao pegar os livros e bolsa de alguém. Eu amo andar de ônibus porque eu vivo vendo gente sendo gente. E isso é fascinante demais pra ser algo que passa despercebido.

Gente, talvez, seja a coisa mais bonita que exista,  porque ser gente é ser um monte de experiências, um monte de sonhos, medos, desejos, amores, um monte de um monte que são individualidades. Individualidades essas que juntas formam sete bilhões de mundos dentro de um só. E entre esses sete bilhões existe eu, que to pensando isso agora, e, ao mesmo tempo, um alguém que esteja lá do outro lado do mundo pensando na roupa que vai vestir, e outro que ta lutando pela vida, e outro que só quer chegar em casa e dormir.  Existem sete bilhões de vidas que estou louca pra conhecer e eu nunca vou ter essa oportunidade. E, repito, isso é fascinante demais.

Daí eu me lembro do Gus e seu medo do esquecimento, e concordo com a Hazel, o esquecimento é inevitável. Mas, ao mesmo tempo, acho injusto sermos esquecíveis. Acho injusto o universo nos parir, nos ver ser nós mesmos, nos ver encontrar mil pessoas na vida e, no fim, esse tanto de mundos, de coisas interessantes, de medos, amores ser algo esquecível. Acho injusto não pra mim, mas pras pessoas que por aí ainda serão paridas. Porque elas simplesmente não terão oportunidade de conhecer seu José que abre a porta do ônibus mesmo sem estar na parada, nem de conhecer João que todo dia me dá um bom dia caloroso, pergunta se estou bem e me deseja uma boa aula toda vez que vou pagar a passagem. Ou, até, que nunca saberão quem foi Sócrates e o que ele disse. Quem foi Cleópatra, João Verde, Napoleão Bonaparte. E isso é injusto demais.

Não há como negar que provavelmente, um dia, ninguém irá saber o que essas sete bilhões de pessoas fizeram ou irão fazer até o último dia da vida delas. E o universo zomba da nossa cara nesse momento. Aí vem um pensamento na mente: "Se tudo está fadado ao esquecimento, por que perder nosso tempo vivendo?" E é nesse ponto que eu acho que tfios é extremamente genial. Não importa muito o depois, as pessoas que virão ou não, o dia que talvez virá, a marca que eu vou deixar no mundo ao fazer uma escultura, porque, no fim, ela não mais vai existir e muito menos nós. E todo o futuro é um talvez. Um grande talvez. Mas, as pessoas não. Não há talvez nelas. Não hoje, pelo menos. E poder aproveitar cada uma delas, cada uma de suas particularidades, medos e aprender com elas, viver, observá-las no agora é o que torna tudo real/crível. É acreditar nelas, no poder de suas influências e marcas na nossa vida que torna tudo infinito apesar do inevitável finito de nossas memórias.

Acho que esse é o verdadeiro porquê de tudo: As pessoas.  Por isso, me acho no dever de não perder nenhuma delas de vista, perdê-las o mínimo possível, pelo menos; então as observo sendo, na surdina, devagarzinho, sem pressa. E no fim, entendo que o infinito é exatamente o agora.



*Não sei se ficou confuso demais, mas juro que na minha cabeça dá pra entender. 

10 comentários:

  1. Engraçado que esses dias eu estava pensando em algo parecido... viajando sobre como a gente meio de desaparece do mundo, se as memórias não forem passadas para frente, para as novas gerações. Os meus avós, por exemplo, viveram uma vida linda, mas eu sei pouco sobre ela. Pra onde vão as histórias que eles viveram, as emoções que eles sentiram, as lições que eles aprenderam? A próxima geração da minha família, meus filhos e netos, provavelmente não saberão quem eles foram, apenas em "essência", seus bisavós, tataravós... Mas e as suas histórias, pra onde vão?

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  2. que texto incrível.
    ao mesmo tempo que odeio algumas pessoas, sinto curiosidade por outras e amor por algumas delas. o ser humano é um bicho muito complexo porque pode estar com os pés na terra mas a mente na lua, pode estar pensando em mil coisas mas ao mesmo tempo só em uma e acho que é isso que o torna tão fascinante: o fato de que ao mesmo tempo em que todos somos normais do nosso jeito, somos completamente loucos. sem exceção.
    ps: cada vez que eu venho aqui, só me encanto mais. o teu jeito é realmente incrível.

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  3. Vou ser sincera, as pessoas me cansam e muito. Elas são sempre preconceituosas, reproduzindo pensamentos de seus tataravós, costumes que nem sabem do porquê, desrespeitando uns aos outros, fazem guerra... mas o ser humano quando quer, até pode ser capaz do belo.
    Já eu, acredito que seja válido sim viver e aproveitar cada segundo e não importa se depois vc será lembrado por um legado ou nao.
    Abraços!
    Perspectiva Nova

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  4. honestamente, eu amei esse texto. ontem eu vi tfios, chorei tanto e senti tantas coisa boas. porque as pessoas são feitas pra sentir, não é mesmo? também acho gente incrível. ao mesmo passo em que gosto de andar com o fone de ouvido bem pregado, sentindo a brisa e vivendo sozinha, gosto muito de admirar gente. admiro gente. e gostei tanto assim do seu texto. todo o mundo tá aí procurando o grande talvez.
    (não sou boa com comentários, mas realmente senti necessidade de comentar esse)
    bjss

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  5. Acho que como você mesma leu em um dos meus últimos posts, eu costumo observar pessoas até ver o lado ruim. Acho que qualquer comentário que eu der aqui vai estragar a maneira brilhante como você pensou.

    Novembro Inconstante

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  6. Nossa, eu fiquei literalmente boquiaberta com seu texto. Sabe, as vezes parece que só eu faço coisas como ver um avião passar e imaginar quem está ali, pra onde está indo... Imaginar as incertezas, as inseguranças e tudo que leva no peito.
    Me identifiquei na parte em que você falou sobre observar as pessoas no ônibus e isso é realmente algo surpreendente, a forma como todo mundo é tão diferente e tão igual ao mesmo tempo...

    tofalandoisa.blogspot.com.br

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  7. Adorei o seu texto, adoro observar as pessoas, viajar pensando o que elas fazem, o que sentem... Só não gosto muito de socializar, haha
    Anyway, achei seu texto lindo! :'D

    Champagne Supernova

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  8. Quando te li citando o grande talvez no título e ao longo do post também, fiz uma referência mental, na mesmíssima hora, ao enredo de Quem é você, Alasca? também do John Green. Já leu? Se sim, que maravilha; e se não, leia leia leia! É incrível, ainda melhor que TFIOS.
    E ó: também adoro observar as pessoas.
    Adorei o texto, compartilhou muito do que eu também penso, beijão.

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  9. Uau. Não ficou confuso. Na verdade, que post foda.
    Eu acho que entendo o que você quer dizer. Não totalmente, porque geralmente não sou fã de "gente". Muito pelo contrário.
    Mas sou obcecado por beleza, e a questão da beleza ser efêmera implica exatamente nessa coisa toda de esquecimentoXeternidade que você citou no post.
    Sobre nem todas as pessoas do mundo terem a oportunidade de ver o quão belo pode ser qualquer coisa que eu esteja vendo agora, e o quão frustrante é saber que isso vai murchar e acabar, e a maioria das pessoas não vai nem sequer saber que aquilo existiu.
    E a ilusão de pensar que na palavra "infinito". Eu não acho que o infinito seja agora. Eu acho que a noção humana de "tempo" é muito deturpada. Mas é romântico falar sobre o "infinito". E isso me lembra a imagem na barra lateral do seu blog: "Você é um idiota?" "Não, senhor, eu sou um sonhador". Faz sentido.

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  10. Eu amei esse texto com todas as minhas forças. Ficou lindo, ficou bem escrito, ficou totalmente organizado e eu consegui captar a essência. E pensei em quantas pessoas já passaram por mim no ônibus, na rua, na faculdade, no elevador, etc. Eu costumo pensar muito nisso, pra falar a verdade. Que cada pessoa que está ali, ao meu lado, à minha frente, do outro lado da rua ou do outro lado do mundo é uma pessoa complexa, que viveu, que experimentou, que respirou, viu coisas que talvez eu nunca verei, que pensou coisas que talvez nunca passem pela minha cabeça... Enfim.

    Mas ainda que eu ache as pessoas maravilhosas, sou obrigada a reconhecer que desses 7 bilhões, uma boa porcentagem não vale a pena entrar na categoria de "interessantes". Acho que são justamente as pessoas que passam por essa vida sem aproveitar, sem abrir a mente pra aprender. Pessoas que só pensam em futilidades, sabe? Pessoas cujos hábitos não mudariam de forma positiva a vida de ninguém. Pensamentos lixo, que de nada acrescentam.

    Acho bonita essa poesia que as pessoas e seus hábitos inspiram, mas acho que algumas são tão desagradáveis que não merecem receber mérito por todas as outras que usam suas experiências pra melhorar, pra passar coisas boas pras outras pessoas. Enfim.

    Estamos fadados ao esquecimento, mas, citando Extraordinário, nossos feitos são monumentos. Então acredito que tudo o que fizemos marca as pessoas ao nosso alcance e aquele pequeno fragmento de nós estará sempre com ela. E, inevitavelmente, ela passará ele misturado com suas próprias experiências pras outras pessoas e assim sucessivamente. Nós, nossa pessoa, nosso nome pode até ser esquecido. Mas se nossos feitos são monumentos, tudo o que a gente faz ficará aí pra eternidade.

    palavras alienadas ♥

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