04 março 2014

Não fui de saia

Ontem eu resolvi ir pro Recife antigo pra assistir ao show de Otto e pra participar um pouco do carnaval, não ser muito antissocial é uma das resoluções desse ano. Enfim, fiquei animada porque, mesmo relutante, adoro um bloco, e dançar frevo enquanto sinto a energia ao cantar que "Recife tem o melhor carnaval do Brasil" junto com milhares de pessoas, que estão ali pra se divertir e estão cheias de orgulho no peito proclamando o amor pela cidade, é sensacional demais, até pra mim. Por isso, levantei a bunda da cadeira, dei um stop em todos os filmes que pretendia assistir ontem à noite e até em my mad fat diary - que vocês deviam assistir, à propósito -, e comecei a procurar uma personagem com cabelo curto pra eu me fantasiar de.

Depois de quase trinta minutos persistindo nessa busca, desisti e resolvi ir de roupa normal. Só que. Quando eu apareci na sala vestindo a roupa escolhida pra tal evento, fui barrada sem nenhuma hesitação. Sabem por quê? Porque, nesse dia, contrariando meu vício eterno de usar calça jeans, decidi ir com uma saia rodada azul que comprei na china. E, minha irmã, já me barrando, resolveu dizer que não iria pra lugar nenhum comigo se eu continuasse a usar a dita cuja da saia, porque corria o perigo de eu ser atacada na rua por algum bêbado ou só por uma pessoa desequilibrada o suficiente pra pensar que tem a autorização de me tocar sem minha permissão. Minha reação: Indignação, muita, pra falar a verdade, porque eu estava com vontade de usá-la, não por querer chamar a atenção de alguém, mas, porque o calor estava demais e também porque eu queria usá-la e ponto. PONTO E SUFICIENTE. E, graças ao nosso sistema político atual e às gerações anteriores que conseguiram conquistar o direito ao voto, de se expressar e etc, eu gostaria de usar aquela roupa por motivos de ter o direito de vestir o que eu quiser sem que ninguém tenha nada a ver com isso.

Mas, ao contrário do certo, hoje, em pleno século XXI, eu sou impedida de usar algo da minha vontade por medo de ser violentada tanto fisicamente como moralmente. O que é algo que vai em contramão a todos os avanços de uma sociedade que tem como princípio garantir o direito de ir, vir e ser de todo cidadão. O que vai em contramão a todas as mulheres que morreram por tentar conquistar o poder de serem mulheres e terem seus direitos respeitados, pra estarem em pé de igualdade com seres chamados de homens.



Nunca fui do tipo que levanta a bandeira feminista, mas precisei falar sobre isso aqui, porque é um tremendo absurdo em plena era globalizada em que as pessoas tendem a ser mais instruídas, mais seres humanos e menos animais que agem apenas com instinto, eu não sair de casa com shorts, saia, vestido com medo de que no ônibus algum ser deplorável se sinta no poder de encostar em mim. Ou, eu tenha de mudar de calçada porque existem pessoas que acham que "gostosa" é um elogio, ou até que olham descaradamente da cabeça aos pés como se eu fosse algum tipo de objeto que elas tivessem o direito de observar, fotografar, etiquetar e. É absurdo não poder sair sozinha à noite por medo de ser violentada, é absurdo eu precisar da companhia de um homem pra não ser considerada de uso coletivo de quem quer que se ache em posição de usar da própria força contra mim, por ser mais fraca. É um absurdo eu viver com medo, é um absurdo eu ser constrangida por seres mau-amados e doentes que precisam assobiar, gritar, tocar, violentar alguém do outro sexo para se firmar" macho". Porque, pra mim, eles só se firmam doentes. E muito doentes.

Fico muito triste mesmo por essa situação, fico triste por ainda estarmos longe de sermos uma sociedade adequada onde todos são considerados iguais e são tratados como seres humanos em essência. Fico triste por ainda ter de passar por situações em que o ser humano se mostre mais instinto e menos homem. E, eu realmente espero que isso mude logo, espero que eu ainda esteja viva pra ver uma mudança drástica no modo em que as pessoas tratam as outras e se relacionam. E espero que o dia em que o respeito seja realidade na sociedade e que ninguém seja suplantado em detrimento de outro mais forte chegue logo. Sinceramente.



Observação: Passado o furor do momento, percebi (graças a Lorena e Natália) que no segundo parágrafo não deixei muito claro que minha indignação não foi dirigida à minha irmã e, sim, à essa sociedade que se diz civilizada, mas, ao mesmo tempo, me impede de usar o que quero por medo de ter meu espaço invadido, fisicamente ou moralmente. Essa indignação é toda e exclusivamente direcionada aos seres humanos que são coniventes com essa sociedade doente. E, por isso, infelizmente, eu tive que concordar com minhã irmã sobre a roupa "adequada" pra aquele momento e, por isso, não fui de saia. 

8 comentários:

  1. Esse é um assunto que me toca TANTO. Perdoa se meu comentário ficar gigante?

    Eu entendo o medo da sua irmã. De verdade. Nenhuma mulher quer ser violentada - nem com uma cantada barata; e me parece natural que para poupar nossas amigas e a nós mesmas disso, achamos que devemos esconder o nosso corpo, andar acompanhada. É natural esse comportamento, afinal, falamos o mesmo de lugares com potencial para sermos assaltadxs.

    O problema é que, em ambos os casos, o problema é tão maior do que o simples fato de uma mulher reprimir a outra..! (Veja, eu ainda acho melhor uma mulher falar para a outra "cuidado, essa roupa tá muito curta", do que um homem falar "você não vai sair que nem uma vadia"). Eu entendo a preocupação (eu me preocupo comigo, com minhas amigas - claro!), mas eu fico me perguntando se as famílias dos mocinhos não fazem alguma recomendação nesse sentido para os mocinhos quando eles vão sair de casa. Algo como "entenda seus limites", "respeite o próximo", "não insista, não force", etc etc. Isso, muitas vezes não acontece na mesma família onde uma mulher é orientada a não se vestir como uma vadia. Cadê mães e pais orientados os filhos homens também?

    Você tem todo o direito de se sentir reprimida, mas pelo o que me pareceu, a culpa não é da sua irmã. Ela também vive em uma sociedade machista e muito provavelmente ela aprendeu isso, em casa ou fora dela, que é mais seguro se vestir com roupas mais fechadas se a gente quiser evitar qualquer tipo de violência. Ela não esta errada, porque - em termos práticos - muitas vezes os homens acham que a mulher de roupa curta está "pedindo" qualquer assédio, então, de certa forma (e eu odeio dizer isso), sua irmã está certa.

    Mas é que é tudo muito mais complexo que isso, e eu, infelizmente, não sei qual é a maneira mais efetiva da gente arrumar esse mundo cão!

    ResponderExcluir
  2. Ai, uma tristeza isso Beatriz... uma tristeza que a gente AINDA tenha que pensar em todos esses fatores absurdos antes de sair de casa com uma simples saia. Seu texto tá muito eloquente e eu compartilho da sua indignação!

    ResponderExcluir
  3. Nossa, como eu entendo você.
    Sabe, eu ando muito a pé e de ônibus. E duas vezes na semana, saio da faculdade e vou pro meu curso de francês no fim do dia. Pego um ônibus e ando um dez minutos. No verão, entrar num ônibus as seis da tarde e andar dez minutos é um inferno na Terra, mas eu nunca uso short, saia ou vestido nesses dias porque tenho medo do que pode me acontecer. E me odeio por isso. Por ser forçada a passar calor, e por ter que me submeter porque senão pode me acontecer algo muito pior. É realmente muito triste, isso me quebra por dentro, assim como fico revoltada de ter que pensar que se eu for voltar da casa de uns amigos meus, que moram super perto de casa, à noite e a pé, ou eu tenho que pegar o carro pra andar duas quadras, ou eu tenho que pedir pra algum amigo HOMEM ir comigo. Meu maior medo não é ser assaltada, antes fosse.

    Então sim, é uma merda. Mas tamo junta o/

    ResponderExcluir
  4. Compreendo e concordo com a sua indignação, sinto a mesma, faz pouco tempo que tive uma festa e precisei ir de ônibus, foi a primeira vez que peguei transporte público de shorts, foi um horror! Morri de medo de ser sequestrada, violentada, assediada, depois disso engoli meu feminismo e o vomitei: saiu de saia mesmo, e quando olham faço cara feia, cara de nojo, se assobiam ou jogam cantadas eu respondo, mando pra onde judas perdeu as botas e discuto mesmo, só que isso não anula meu medo, tenho pavor de sair na rua sozinha, porque eu sou mulher, li uma frase outro dia que dizia que "ser mulher é arregar o tempo todo", e é isso mesmo, a gente arrega quando muda de roupa pra não ser estuprada, a gente arrega quando leva cantada e precisa engolir seco pra não apanhar na rua, a gente arrega quando desiste de sair sozinha à noite porque é perigoso demais mulher andar sozinha, quando essa sociedade de merda vai melhorar? De que adianta inventarem tecnologia pra iphone 20 se falta tecnologia pra ensinar a se respeitar?

    http://www.novaperspectiva.com/

    ResponderExcluir
  5. Eu também não era de levantar bandeiras feministas, até perceber que só o feminismo pode nos libertar de situações como essa.
    Sempre fiquei com uma mistura de medo e ódio quando alguém falava alguma coisa pra mim. No ensino médio, estudava numa escola cujo uniforme era saia de pregas e descobri que isso é um artigo fetichista de primeira. O que me deixa ainda mais puta da vida, porque pra mim aquela saia significa uma tradição da qual fiz parte. Mas os desgraçados tentavam me tirar isso transformando minha saia em algo sujo. Sujos são eles. Sujo é o patriarcado.
    Há pouco tempo li que, na verdade, essas ações deles (assim como o estupro) não tem nada a ver com instinto. São demonstrações de poder. São eles clamando que são nossos donos. MAS NÃO SÃO. Por isso o feminismo é importante. Post necessário.
    Beijo!
    (AAAAH, NÃO ACREDITO, EU ESTAVA NO RECIFE ANTIGO NESSE DIA E OLHA QUE EU NEM MORO AÍ rs)

    ResponderExcluir
  6. Acho que não é ser feminista, é só querer ser você mesma sabe?
    Que mulher já não passou por isso?

    Novembro Inconstante

    ResponderExcluir
  7. Vejo muitas pessoas hoje em dia por aí falando em "feminismo" sem ter a menor ideia do que estão falando. Você não foi uma delas. Você não fantasiou e não exagerou. Está em seu direito de defender o seu direito, entende? rs
    Somos criados para pensar de uma forma, e desde pequenos consumimos produtos de entretenimento onde as "meninas fazem coisas de menina" e "meninos fazem coisas de menino". É difícil de engolir, mas a "cultura do estupro" realmente existe.

    obs: Outra coisa, você falou ali dos doentes. Realmente, muitos dos estupradores são doentes, mas não todos eles. Por "doente" você configura alguém que não tem controle sobre suas próprias índoles, eu sei disso melhor que ninguém. Na verdade, a maioria dos estupradores é só babaca mesmo.

    ResponderExcluir
  8. Ah, Bia (posso chamar assim?) isso é realmente horrível e eu, como também mulher, entendo bem como é esse sentimento. A gente busca liberdade, mas é difícil alcançar sem sentir medo. Encontrar o feminismo, pelo menos, é um escape que me dá segurança e voz. Não tenha medo de levantar a bandeira feminista não! Na maioria das vezes ela é tudo o que temos, infelizmente :( Sua irmã só estava querendo te proteger, não adianta se revoltar com ela mesmo. Só não dá pra aceitar quando é a sociedade machista ditando o que vamos vestir, fazer, ser, porque, oras, nós somos pessoas com vontades próprias!
    Gostei muito do seu blog e da sua vontade de escrever!
    Beijo!

    ResponderExcluir