30 março 2014

Em um universo paralelo, talvez não totalmente Rae

Meu objetivo era não falar de my mad fat diary, porque muita gente já o fez e, o fez muito bem. Mas, não consegui passar por esse último episódio sem ter uma vontade imensa de dizer que essa é a série mais fantástica de todos os tempos -  levemos em consideração que já assisti mais de mil séries hehe e, principalmente, levemos em consideração que essa é a minha e, exclusivamente minha, opinião.

Não vou fazer nenhuma espécie de resumo, porque se você não assiste, deve assistir; e se você já assiste, já sabe da história.

Pra não perder os velhos hábitos clichês, vou dizer que eu sou a Rae Earl. Mas, digo isso em alto e bom tom, porque é a mais pura verdade do mundo. Talvez eu nunca tenha precisado ir pra um hospital psiquiátrico por ter me machucado fisicamente, mas, em contramão, eu mesma tenha me machucado várias vezes mentalmente/emocionalmente, me auto-boicotando e etc. Ou talvez eu não tenha 150 quilos e me ache a pessoa mais horrível do mundo por ser gorda, mas tenha 46 quilos e me ache diferente por não ter cocha, nem bunda como as mulheres da tv e as ditas brasileiras. .

Enfim, o assunto do post não é esse, ou é, também. Explicando... No último episódio da segunda temporada (talvez último episódio da série), Rae tem uma conversa bem séria com o Kester, seu psicólogo, sobre ela ser uma pessoa droga, inútil, horrível e entre outras coisas. Essa cena é tão forte e tão emocionante que vou colocar um pedaço aqui do diálogo:

K: "Eu quero que você imagine uma versão de você que tem 10 anos sentada logo ali naquele sofá. Agora essa é a pequena garota que acreditou um dia que ela era gorda e feia e uma vergonha. Eu quero que você imagine ela sentada naquele sofá ali agora. Agora diga pra essa garota que ela é gorda."
R: "Eu não vou fazer isso."
K: "Diga para essa garota que ela é feia."
R: "Eu não quero."
K: "Diga para essa garota que ela é uma vergonha, desprezível e inútil. Porque é isso que você faz consigo mesma todas as vezes que diz isso pra você, quando você se convence que é uma vergonha e um fardo. Você acha que ela é feia?"
R: "Não."
K: "Não? Ou feia ou uma vergonha ou inútil?"
R: "Pare!! Não, ok? Não."
K: "O que você quer dizer para essa garota? Se ela te disser que é assim que ela se sente sobre si mesma, o que você diria pra ela?"
R: "Que ela é ótima. Que ela é perfeita."
Foi tão sensacional assistir algo desse tipo, que não teve como não me enxergar ali, no meio daquela dor. Por isso, eu resolvi aderir à postagem coletiva do rotaroots, embora não faça parte do grupo, e escrever pra a minha eu de dez anos atrás, pra dizer a ela o quão incrível ela é e pra que ela keep going de cabeça erguida pra talvez, a minha eu, de outra dimensão, futura, seja melhor, mais confiante do que sou hoje.

(AVISO: ESSE POST PODE FICAR UM POUCO GRANDE)
Querida eu, 
Talvez você fique meio desconfiada ao encontrar essa carta, achando que alguém está fazendo piada de você, mas, acredite se quiser, essa sou eu escrevendo com dez anos a mais (Talvez a humanidade tenha descoberto a máquina do tempo). 
Sei que isso é excitante, sempre fomos ansiosas - faríamos de tudo pra saber o futuro- confesso que isso não mudou muito, por isso irei falar algumas coisinhas, mas nada muito grande pra não perder a graça de toda a sua jornada. E, pra falar a verdade, se tem uma coisa que esses dez anos vêm tentando me ensinar é a ter mais paciência, por isso vou te deixar com curiosidade às vezes, tenha muita paciência. Na verdade, essa é uma palavra que você deveria anotar na sua parede, no caderno, na mão, em qualquer lugar, pra você sempre se lembrar, porque você já tem que colocar na sua cabeça que as coisas não acontecem quando queremos e como queremos. As coisas acontecem quando tem que acontecer e você vai perceber que elas acontecerão melhor do que você as havia planejado, acredite. Sei que você provavelmente está lendo isso e fazendo cara de "acho que não hein", porque somos teimosas, mas se tem outra coisa que eu aprendi nesses anos foi a escutar mais os conselhos de quem a gente ama, e eu to falando isso pra você porque eu realmente quero que as coisas deem certo. E pelo que to conseguindo ver daqui de cima da montanha, nosso caminho é bem tortuoso, mas cheio de alegrias. 


Queria te dizer, também, pra você olhar mais pros lados, não tem problema ser na sua, mas às vezes devemos enterrar o medo bem fundo pra podermos fazer aquilo que realmente queremos. E eu quero que você faça isso, olhe mais pras pessoas ao seu redor, elas não mordem, acredite; quando você conseguir olhá-las e vê-las como seres humanos, apenas, tudo vai ficar mais natural e, por isso, você não vai sofrer tanto, fechada no seu mundinho. Sei que essa bolha que você criou pra você é bem convidativa, dá vontade de ficar nela pra sempre, mas você tem que entender que o mundo vai muito mais além do que cinco passos pra cada lado do seu corpo, e viver do lado de fora dessa cápsula pode ser muito mais divertido, você vai ver.  Outra coisa, sei que nesse momento você está passando por mudanças, suas amigas já não pensam só em bonecas, brincadeiras e etc, e por isso você se sente deslocada. Não fique. Você vai ver que a hora que esse sentimento surgir vai ser perfeita, será a hora certa de conhecer alguém legal que vai chegar num timing perfeito, então, você deve aproveitar esse momento de agora pra correr mais por aí, sei que nunca fomos fãs de esportes, mas faça um esforço, porque nossa saúde agradece. Você não vai ficar encalhada pra sempre só porque decidiu dizer não pra alguns meninos. Ao contrário, você vai aprender que a melhor companhia que podemos ter, somos nós mesmas e mais algumas gargalhadas, quem sabe até um livro e, vez ou outra, alguém especial vem pra acrescentar esses momentos de felicidade. À propósito, você vai fazer amizades inesquecíveis, vai viajar pra Europa, Hogwarts, Forks, Olimpo. E já vou adiantando, vai ter uma época em que você vai ficar completamente louca por um vampiro aí, vai chorar, dizer que ama, brigar com quem também disser que ama, comprar inúmeras coisas, colar um pôster enorme no seu quarto, mas, assim como surgiu, isso vai partir rapidamente. Então, tente não brigar tanto com seus amigos por causa disso. 



Uma coisa muito importante que quero te dizer: aproveita bem as pessoas que estão contigo nesse momento, a vida passa depressa demais e as pessoas mais amadas vão indo embora. Então, não chora. Tenta lembrar dos momentos que passamos com elas que foram tão maravilhosos, lembra dos sorrisos, dos bombons e do "eu te amo" dito baixinho pra ninguém ouvir. Esse vai ser o período mais triste de nossa vida, você vai chorar noites à fio, vai querer amaldiçoar Deus por ter levado quem você ama e vai chorar baixinho toda vez que lembrar. Mas, acredite, a dor vai diminuindo com o tempo, iremos sentir saudade, lembrar de tudo, mas a ferida já não sangra mais. Então, calma, tudo passa. Seja forte. Busca lá no fundo essa força que existe, mas ta escondida. Você vai descobrir que é muito mais forte do que imagina. 




Outra coisa, quero que você não fique muito desesperada quando sentir que as responsabilidades estão aumentando, principalmente quando você ouvir pela primeira vez a palavra vestibular. Só te adianto que sempre fomos confusas, então esse momento da nossa vida não seria diferente. Vai ser uma confusão, você vai chorar, vai querer desistir, vender pulseira na praia, mas, depois do desespero, vai perceber que a resposta tava lá o tempo todo, você só não percebeu. Depois disso, não vou dizer que tudo vai ficar mais fácil, não vai, mas vai ser um caminho difícil em busca do seu maior amor. E tudo vai se encaixar. Ainda não posso te dizer quando e como as coisas vão acabar, ainda não cheguei na linha de chegada, mas, prometo, que assim que chegar, te escrevo pra dizer o quanto seremos felizes. Sem datas, claro, porque aí nada teria graça. 

Medo é um tecla que deu tilt no nosso sistema, infelizmente. Portanto, vou repetir e falar dele de novo aqui. Em algum ponto dessa vida, segundo yeda, minha psicóloga, ele começou a colocar suas garras pra fora. Então, por favor, quando você sentir que ele vai dar as caras, simplesmente manda ele dar o fora! E, portanto, faça questão de viver mais, sem medo do que pode acontecer. Nós costumamos pensar muito e isso, às vezes, estraga as coisas. Take it easy. Relaxe um pouco, aceite mais a aproximação dos outros, diga mais a sua opinião, não se cale por ninguém, não deixe ninguém colocar seus desejos em segundo plano, nunca aceite que você não é capaz. Confie em si e mostre ao mundo a Beatriz que existe dentro de você, forte, inteligente, com garra, alegre. Suas opiniões não são baboseira, e se forem, não tenha medo de falar besteira, ou de pedir desculpas por ter falado baboseiras demais da conta. Você é um ser humano, permita-se errar e aceite que as pessoas ao seu redor também erram, tudo ficará mais fácil quando você entender que ninguém ta aqui pra satisfazer nossas expectativas e nem você deve satisfazer as expectativas de ninguém. Então, como diz Mário Quintana, se baste.



Falando em Mario Quintana, você vai ter melhores amigos incríveis. E eles te acompanharão pra todo lugar, já te aviso que suas bolsas sempre serão grandes pra fazê-los caberem nelas. E o principal responsável por isso, será nosso pai, ele te dará de presente um livro lindo com uma capa dura e letras vermelhas estampadas que você devorará em uma estalo, aí você vai querer mais um, mais um e nunca mais vai parar. Além desses melhores amigos, também surgirão pessoas incríveis na sua vida, você vai saber quando elas aparecerem, a gente sempre sabe, que vão te fazer chorar e ter dor na barriga de tanto rir, vão te apoiar, te ensinar a rir mais da sua cara, te ensinarão a aceitar as diferenças e aprender a amá-las.  Eles te completarão sem nunca terem sido sua metade. E você vai amá-los como uma família. 


Acho que já falei demais do que seremos, do que você deveria fazer e, provavelmente, não vai fazer, porque é cabeça dura demais. Assim, só te deixo com um pedaço de um dos nossos livros favoritos, pra que você sempre acredite no seu poder e no poder dos seus sonhos. Acho que uma de suas maiores qualidades é acreditar sempre, no mais bonito, no melhor das pessoas, nos sonhos; portanto, nunca, NUNCA, deixe nada abalar isso, sempre levante a cabeça, lute e acredite no que pode existir de mais belo, mesmo que aparentemente seja algo impossível. 

"— É pecado sonhar ? 
— Não , Capitu. Nunca foi.
 — Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos ?
 — Divindade não destrói sonhos, Capitu . Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer"




PS: Tem tanta coisa que ainda quero te contar, talvez te escreva mais vezes. 
PS²: Escreva mais no seu diário, garanto que você vai amar lê-lo quando crescer. 
PS³: Fiquei com preguiça de escanear uma foto sua, talvez envie outra carta com uma foto decente.  

Com amor.

04 março 2014

Não fui de saia

Ontem eu resolvi ir pro Recife antigo pra assistir ao show de Otto e pra participar um pouco do carnaval, não ser muito antissocial é uma das resoluções desse ano. Enfim, fiquei animada porque, mesmo relutante, adoro um bloco, e dançar frevo enquanto sinto a energia ao cantar que "Recife tem o melhor carnaval do Brasil" junto com milhares de pessoas, que estão ali pra se divertir e estão cheias de orgulho no peito proclamando o amor pela cidade, é sensacional demais, até pra mim. Por isso, levantei a bunda da cadeira, dei um stop em todos os filmes que pretendia assistir ontem à noite e até em my mad fat diary - que vocês deviam assistir, à propósito -, e comecei a procurar uma personagem com cabelo curto pra eu me fantasiar de.

Depois de quase trinta minutos persistindo nessa busca, desisti e resolvi ir de roupa normal. Só que. Quando eu apareci na sala vestindo a roupa escolhida pra tal evento, fui barrada sem nenhuma hesitação. Sabem por quê? Porque, nesse dia, contrariando meu vício eterno de usar calça jeans, decidi ir com uma saia rodada azul que comprei na china. E, minha irmã, já me barrando, resolveu dizer que não iria pra lugar nenhum comigo se eu continuasse a usar a dita cuja da saia, porque corria o perigo de eu ser atacada na rua por algum bêbado ou só por uma pessoa desequilibrada o suficiente pra pensar que tem a autorização de me tocar sem minha permissão. Minha reação: Indignação, muita, pra falar a verdade, porque eu estava com vontade de usá-la, não por querer chamar a atenção de alguém, mas, porque o calor estava demais e também porque eu queria usá-la e ponto. PONTO E SUFICIENTE. E, graças ao nosso sistema político atual e às gerações anteriores que conseguiram conquistar o direito ao voto, de se expressar e etc, eu gostaria de usar aquela roupa por motivos de ter o direito de vestir o que eu quiser sem que ninguém tenha nada a ver com isso.

Mas, ao contrário do certo, hoje, em pleno século XXI, eu sou impedida de usar algo da minha vontade por medo de ser violentada tanto fisicamente como moralmente. O que é algo que vai em contramão a todos os avanços de uma sociedade que tem como princípio garantir o direito de ir, vir e ser de todo cidadão. O que vai em contramão a todas as mulheres que morreram por tentar conquistar o poder de serem mulheres e terem seus direitos respeitados, pra estarem em pé de igualdade com seres chamados de homens.



Nunca fui do tipo que levanta a bandeira feminista, mas precisei falar sobre isso aqui, porque é um tremendo absurdo em plena era globalizada em que as pessoas tendem a ser mais instruídas, mais seres humanos e menos animais que agem apenas com instinto, eu não sair de casa com shorts, saia, vestido com medo de que no ônibus algum ser deplorável se sinta no poder de encostar em mim. Ou, eu tenha de mudar de calçada porque existem pessoas que acham que "gostosa" é um elogio, ou até que olham descaradamente da cabeça aos pés como se eu fosse algum tipo de objeto que elas tivessem o direito de observar, fotografar, etiquetar e. É absurdo não poder sair sozinha à noite por medo de ser violentada, é absurdo eu precisar da companhia de um homem pra não ser considerada de uso coletivo de quem quer que se ache em posição de usar da própria força contra mim, por ser mais fraca. É um absurdo eu viver com medo, é um absurdo eu ser constrangida por seres mau-amados e doentes que precisam assobiar, gritar, tocar, violentar alguém do outro sexo para se firmar" macho". Porque, pra mim, eles só se firmam doentes. E muito doentes.

Fico muito triste mesmo por essa situação, fico triste por ainda estarmos longe de sermos uma sociedade adequada onde todos são considerados iguais e são tratados como seres humanos em essência. Fico triste por ainda ter de passar por situações em que o ser humano se mostre mais instinto e menos homem. E, eu realmente espero que isso mude logo, espero que eu ainda esteja viva pra ver uma mudança drástica no modo em que as pessoas tratam as outras e se relacionam. E espero que o dia em que o respeito seja realidade na sociedade e que ninguém seja suplantado em detrimento de outro mais forte chegue logo. Sinceramente.



Observação: Passado o furor do momento, percebi (graças a Lorena e Natália) que no segundo parágrafo não deixei muito claro que minha indignação não foi dirigida à minha irmã e, sim, à essa sociedade que se diz civilizada, mas, ao mesmo tempo, me impede de usar o que quero por medo de ter meu espaço invadido, fisicamente ou moralmente. Essa indignação é toda e exclusivamente direcionada aos seres humanos que são coniventes com essa sociedade doente. E, por isso, infelizmente, eu tive que concordar com minhã irmã sobre a roupa "adequada" pra aquele momento e, por isso, não fui de saia.