21 agosto 2013

Sobre ser muitos e, no fim, ser ninguém


Eu sairia todos os sábados pra dançar ou estaria me afogando em solidão; talvez estivesse fazendo um intercâmbio na Europa e conhecendo lugares e pessoas incríveis em outras línguas, e minha comida preferida não seria uma que eu nem sei o que é exatamente. Talvez eu estivesse na Disney nesse momento e nunca tivesse conhecido meus amigos, ou nunca tivesse tirado 10 pela primeira vez em física. Estivesse cursando odontologia e, consequentemente, estivesse morando sozinha em uma cidade desconhecida, cozinhando, lavando louça e limpando a casa. Ou nunca tivesse lido os meus livros preferidos e não gostasse de ler, nem de assistir filmes e seriados, nem de fechar os olhos ao ouvir aquela música. Nunca tivesse ido a um show de um hermano, ou tivesse assistido ao nascer do sol na praia com as pessoas mais queridas da minha vida. Se algumas pessoas tão importantes nunca tivessem partido, ou se não tivesse gargalhado inúmeras vezes até a barriga doer; se eu tivesse aceitado aquele pedido de namoro, e não tivesse me apaixonado por biologia. Talvez eu estivesse em um barzinho agora ao invés de estar aqui escrevendo, ou estivesse trabalhando em uma loja de cds. Meu cabelo seria ruivo, e teria uma tatuagem mostrando o meu amor por borboletas, se eu não tivesse feito cada uma das minhas escolhas.

Se eu não tivesse escolhido ler "O diário de Anne Frank" ao invés de "Ensaio da loucura", ou não tivesse assistido a "Being Erica", ou não tivesse escolhido fazer medicina, quem eu seria hoje? O que eu estaria fazendo? Qual o resultado das minhas ações e das minhas escolhas?

"Nós não podemos voltar atrás, por isso é tão difícil escolher. E você tem que fazer a melhor escolha. Enquanto você não escolhe, tudo é possível. "


Depois de meu amigo recomendar e falar maravilhosamente bem de um filme, resolvi dar uma chance pro dito cujo, e resolvi assisti-lo em um dia de procrastinação causado por um resfriado super violento. O filme é "Mr. Nobody", que conta a história de Nemo Ninguém, homem mais velho, de um futuro não muito distante, que tem 118 anos, e é uma incógnita numa sociedade em que as pessoas são imortais e ele é o único e último mortal convivendo em sociedade. Então, um doutor começa a estudá-lo, embora Nemo não consiga se lembrar claramente de sua vida, o médico começa a fazer perguntas do tipo "quem é ele, qual seu nome e como foi sua vida".

Sem obter respostas claras, o médico resolve usar um antigo método, a hipnose. À partir daí, Nemo começa a relembrar de várias existências dele, reais e imaginárias. E nós não sabemos realmente qual delas é a real; são mostradas várias situações em cada uma dessas existências e a confusão que às vezes paira, até mesmo sobre Nemo, à respeito de qual é a sua verdadeira vida. À partir disso, surgem inúmeras reflexões sobre de onde as coisas surgiram, como irão terminar, de onde viemos, por que estamos aqui, quem somos e o que seremos no futuro.




O filme começa a explorar as questões filosóficas do mundo, as escolhas que fizemos e as que deixamos de fazer em determinados momentos da nossa vida. Ele gira em torno desses grandes talvez, sobre o que poderia ou não ter acontecido quando você decidiu tomar sorvete de napolitano ao invés de ter tomado o de morango. E, confesso, o início é bem confuso, mas depois você começa a se questionar a respeito do universo, das pessoas, das suas escolhas, das sua própria existência e percebe que tudo se encaixa perfeitamente e, assim, você começa a se identificar com a história.



Além do mais, há um questionamento sobre o que estamos fazendo com o tempo que passa mas não volta atrás. Há menções à teoria das cordas, dimensões paralelas e etc. Basicamente, o filme é uma teia de questionamentos que todo mundo, um dia, já teve ou vai ter. E mostra que nós somos a consequência das escolhas que fizemos, das relações que temos, daquilo que gostamos e não gostamos e, ainda, deixa como reflexão que tudo é possível até sermos capazes de decidir o que faremos em seguida. Por isso, ele me lembrou muito a música "O velho e o moço" de los hermanos, que também fala basicamente que somos o resultado das nossas escolhas e somos quem somos hoje porque, naquele dia ensolarado, resolvemos ir á praia ao invés de ter ido ao shopping.

"Sr. Ninguém" é muito mais que uma fotografia extraordinária ou uma ordem cronológica intrigante, ele é um questionamento do que realmente somos, daquilo que queremos ser e seremos em um futuro não muito distante. E o que estamos fazendo com nossa vida, quais escolhas estamos fazendo e o que somos como consequência de momentos que vivemos e de pessoas que conhecemos e passamos a viver com. Vale como reflexão para tentarmos nos entender e nos questionarmos mais, mesmo que no fim tudo vire um embaralhado de perguntas e teorias aleatórias, sobre o nosso papel no planeta Terra, na vida das pessoas e no universo.



"Tudo poderia ter sido outra coisa, e seria um elemento igualmente importante."

4 comentários:

  1. O ♥filme ♥ tem ♥ o ♥ Jared ♥
    E ♥ você ♥ gosta ♥ de ♥ Los ♥ Hermanos
    Sobre o inicio, em que você fala, talvez eu pudesse estar num bar ao invés de estar aqui escrevendo: te entendendo.
    Inclusive, seu post me fez começar a pensar na vida, ai ai...

    Novembro Inconstante

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  2. Nossa, que interessante Beatriz! Procurando agora o filme para assistir!

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  3. Acabei de jogar Mr. Nobody na minha lista de filmes pendentes do Filmow, e como você, um grande amigo também super me recomendou. A temática do filme, que você belamente descreveu, me encanta e ao mesmo tempo, me angustia... Sou do tipo encanada, com mais neuras do razões dentro da minha caixoleta de borboleta... E sempre a me questionar, o que o destino teria me reservado se eu calçasse a sapatilha ao invés do allstar ou acordasse 5 minutos mais cedo. Não dá aflição? Não é instigante?

    Questionamentos...

    Beijos =*

    http://alacazaam.blogspot.com.br/

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  4. Se eu ver esse filme, provavelmente vou passar uma semana completamente louca. Eu sou assim com alguns filmes. Se vejo um filme triste, fico triste. Se vejo um filme feliz, fico triste porque a minha vida não é daquele jeito. Se vejo um filme cabeça, vou à loucura. Não que essas coisas sejam ruins, porque eu continuo vendo muitos filmes.
    Adorei a forma como você ligou os seus próprios questionamentos no início do post à resenha do filme.

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