22 fevereiro 2013

Sobre o dia em que me transformei em palavras


Dizem que somos o espelho daquilo que nossos pais são; embora cada um carregue consigo suas próprias particularidades, muito do que somos se deve à nossa criação, à nossa convivência com as pessoas, principalmente com a família.  Desde pequena, escuto, a cada lugar que vou, que sou a cópia do meu pai, não somente fisicamente, mas também quando se trata de nossos hábitos, nosso jeito e modo de ver a vida.
Eu sou bastante parecida com ele, tenho que admitir. Somos tão parecidos que às vezes fico constrangida com tanta semelhança, porque ter o nariz da mãe e os pés da vó é uma coisa, mas pensar igual em uma determinada situação ou gostar da maioria das coisas que seu pai gosta é outra coisa totalmente diferente. Acho que parte da minha ideia de vida e amor é culpa dele, porque sempre o tive como referência para tudo e a todo momento. Ele me ensinou tudo o que mais gosto no mundo, já me ensinou filosofias, já brigou comigo por, assim como ele, “retirar” da minha vida alguém que fez algo que não gostei, já me ensinou a apertar a mão de modo respeitável, que a humildade foi o primeiro ensinamento de Jesus, que as coisas que gostamos de mais não são menos que FANTÁSTICAS e etc etc.
Então, é evidente que ele me ensinou uma das coisas que mais amo fazer no mundo. Ele me ensinou a ler e a amar fazer isso.
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Não me lembro exatamente quando foi o ano em que eu li, pela primeira vez, um livro que não fosse aqueles paradidáticos da escola sobre contos de fadas, mas lembro nitidamente o momento que meu pai entregou aquele que seria o meu companheiro até hoje. Sendo amante da leitura como é, meu pai sempre teve uma montanha de livros antigos que ele guardava desde pequeno e eu ficava os olhando e imaginando aquelas letras lá dentro, eu sentia um orgulho danado de ter um pai que soubesse ler aquilo tudo e eu queria ser assim, eu queria ser igual a ele.
Foi em um certo dia que ele apareceu com um livro azul de capa dura com “Clássicos da juventude” em vermelho escrito na capa. As páginas já estavam velhas, gastas pelo tempo. Ele me contou que aquele foi um dos primeiros livros que leu quando criança também e que, agora, quem iria ler seria eu. Me entregou aquele amigo como se aquelas páginas trouxessem nele tudo aquilo que viveu na época e eu me senti tão importante por ele estar compartilhando comigo aquilo que fui de maneira insana ao encontro do livro.
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Clássicos da juventude é uma coleção composta por: A Eneida, Beleza Negra, Comédias, Teatro Grego, Paulo e Virginia e Os três mosqueteiros (Até onde sei). O livro que eu li primeiro foi o Beleza Negra e eu me apaixonei, porque a edição é tão linda, a história me conquistou de um jeito único e no fim do livro me vi entregue àquilo que, eu tinha certeza, me acompanharia para sempre. Depois que li esse, não parei mais nunca e a cada vez que pedia um novo livro ao meu pai, eu me via ali, naqueles olhos, eu me enxergava sendo um dia, talvez, parecida com ele.
E a partir disso minha vida mudou. Não fiquei mais sozinha, nunca, viajei pra lugares inimagináveis sem nem sair do lugar, me diverti, me emocionei e virei uma pessoa melhor.
Porque eu me transformei em outra.
Eu me transformei em palavras.
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01 fevereiro 2013

Incerta volubilidade


Enjoo facilmente das coisas. Acho que tudo tem um prazo de validade, ou quase tudo. Como diria minha mãe, sou volúvel, e ao extremo. Então quando parei pra pensar no que queria fazer ao “crescer”, não somente uma coisa pairou em minha mente, mas milhares de coisas. Quero ser médica, astronauta, designer, dona de karaokê, irmã, mãe, amiga, quero consertar coisas, ser física, escritora, jornalista, crítica, quero conhecer de tudo um pouco.

A partir disso, pode-se dizer que escolher exatamente o que queria prestar no vestibular não foi tarefa fácil, para mim (embora pra quase ninguém seja). Me deparei com inúmeros quereres e a cada boa noite de sono mais uma alternativa aparecia. Com o tempo, eu percebia que eu queria ser eu, mas queria ser várias outras ao mesmo tempo e em dias diferentes. Ou seja, eu estava sendo volúvel, assim como era em todos os outros aspectos da minha vida.

Tantas opções me deixavam louca e desesperada. Porque ser eu em essência era o objetivo maior dessa busca e eu precisava me achar em alguma dessas opções.

Medicina, para mim, sempre foi uma forma de expressão. E, mesmo que eu tentasse negar, era ela que ficava martelando na minha cabeça desde minha pré-adolescência. Portanto, em um belo dia, quando resolvi me despir de todos os medos e inseguranças, eu abracei, descarada e sem nenhuma volubilidade, meu amor pela medicina. Não foi fácil. Escolher entre tantas outras coisas que – ainda- serei ou estudarei ou exercerei como hobbie. Mas mais difícil ainda foi encarar a estrada que ainda estava por vir.

Todos já estão cansados de saber que medicina até no Paquistão é concorrida e, portanto, difícil de entrar. Mas depois de abraçá-la completamente, isso era “só” um obstáculo, na minha jornada, para chegar no meu objetivo maior. Não vou dizer que nunca pensei em desistir, pensei, sim, e inúmeras vezes. Me perguntei também outras tantas se aquilo era realmente o que eu queria, se entre tantas coisas no mundo eu tinha escolhido a que verdadeiramente era eu.

Sou volúvel, sou efêmera. Mas não mais, pelo menos não em relação a essa certeza que tenho em relação ao meu futuro como médica. O caminho é longo, duro e cansativo, mas o amor é maior. Porque outra palavra não pode resumir o ato de ajudar ou salvar alguém, seja fisica ou psicologicamente. Daí eu descobri que ser médica é também ser escritora, é também ser designer, é ser astronauta, jornalista, amiga, porque amor é o resumo de todas essas e outras profissões.
Então eu me encontrei sendo tudo em uma só.
Porque, como diria Fernando Pessoa, “Eu sou muitos”

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