06 janeiro 2013

Nada menos efêmero



“Ah, Dindi! 
Se tu soubesses quanto machuca
Não amaria mais ninguém”


Nunca fui muito fã de despedidas, na verdade, não sei lidar com pessoas indo embora – por pouco ou tanto tempo quanto necessário. Mas às vezes deixar ir é soltar-se. Na vida, eu acredito, que tudo acontece por uma razão. Se eu estou passando por maus bocados é porque eu preciso passar por essa situação para enxergar coisas melhores que virão lá na frente ou, simplesmente, pra poder enxergar aquilo que já está na minha frente, de forma diferente.

Quando eu era pequena e meus pais chegaram com a notícia de que meu avô havia morrido, a dor da despedida foi tão grande que eu passei meses chorando, à noite. Aquilo pra mim era injusto. Por que as pessoas que a gente mais amava tinham que ir embora? Essa era a perguntava que ficava martelando na minha cabeça dia e noite. Nunca fui boa com despedidas. O tempo passava e aquela despedida ainda não sarava, machucava cada parte do meu coração.

Mas aí chega um dia que a gente acorda e aquela dor já não dói como antes, amenizou. Obviamente, eu  ainda sinto falta dos bombons que ele me comprava e de como ele me ensinava a jogar dominó. A saudade ainda bate na porta, ainda lembro daquele fumo da tarde que ele fazia e de seu mal-humor amável. Mas a lembrança é saudável,  não perfura mais o coração. Eu sinto que o deixei ir. Entendi.

Efêmera é a minha palavra preferida. A vida é a mais efêmera das coisas, você senta no banco por alguns minutos e, pronto, a vida já passou mais um tiquinho. Os minutos correm, as horas vão na velocidade da luz. E as pessoas também. E os medos também. De uma hora pra outra, você não tem mais aquele abraço de vô, não tem mais aquela prima que cantava contigo ao vento: “Quando Deus te desenhou, ele tava namorando”. De um ano pra outro, os medos se foram e outros diferentes chegaram. Lugares mudaram, gostos mudaram e certezas também. De uma hora pra outra.

Aí você percebe o quanto mudou. Você percebe o quanto cresceu e quanto sentido aquele negocinho escrito em latim tem, CARPE DIEM. Porque você não tem mais 15 anos, nem escola no outro dia. As coisas parecem mais complicadas, aquele bombom de vô no meio da tarde fica em uma memória distante. As pessoas te cobram, você se cobra e tudo é mais adulto. E nesse tempo todo, você se pergunta quantas pessoas passaram pela sua vida e o que elas deixaram e o que levaram de você. 20, 10, 1 ano de memórias, risadas intermináveis, mágoas, primeiros amores, brigas, choros e saudade. Tudo o que passou.

Então você percebe que todas as despedidas doídas, um dia, não irão doer tanto. E  entende que a vida é efêmera e que as pessoas que estão com você hoje podem não estar amanhã, então você aproveita a presença delas hoje. Você percebe que você é aquilo que a vida fez de ti, as pessoas que passaram  e as escolhas que você fez pela sua jornada. Assim, você entende que tudo tem uma razão. As pessoas vão pra que outras cheguem, os medos vão para que outros embarquem nesse trem da vida. Aí você percebe que nunca vai deixar de sofrer em despedidas, mas percebe também que vai carregar cada pessoa, cada momento importante no seu coração.
De modo não efêmero.

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Porque você entende que alguns infinitos são maiores que outros, mas você não os trocaria por nada nesse mundo.

4 comentários:

  1. Tudo isso mexe muito comigo, me amedronta- aliás, acho que a todos. As pessoas que eu tanto amo a qualquer hora podem não estar mais comigo. E que mesmo existindo infinitos maravilhosos, eles não são para sempre. Ainda existem muitas dores para serem sentidas e muitas responsabilidades para serem assumidas. Precisam ser encaradas. Sou uma garotinha com medo, bia. Extremamente trancada para mudanças, extremamente nostálgica. O que eu faço?
    Tudo que você escreveu é verdade, concordo plenamente. Li e chorei, tenho que dizer. Amei extremamente, completamente. "Efêmero" é uma boa palavra...E ela nos rodeia, faz mesmo todo sentido. Por isso entender CARPE DIEM é tão necessário. Esse texto é muito importante para mim e foi um dos mais lindo que você já escreveu. Espero que eu esteja na sua vida e você na minha por muito tempo ainda. Porque eu te amo muito, muito, muito!

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  2. acho que em 4 anos de blog, essa é a primeira vez que um texto me toca dessa forma. Sabe, em 2010 uma prima que eu gostava muito faleceu. Depois de dois meses, todos já estavam bem recuperados. Mas eu achava injusto, porque cada vez que uma pessoa parecia voltar a ser feliz, era como se a imagem dela viva estivesse se apagando sabe? Com o tempo eu fui descobrindo que ninguém precisa falar nela como se estivesse viva para que fosse lembrada. Acho que não tem um dia em que eu não me lembre. Esse ano de 2012 ganhei um sobrinho, até sonhei com ela falando q queria estar aqui para ve-lo. Acho que é assim mesmo, uns se vão, outros chegam,e nunca para.

    sua nova seguidora :)
    thehourofthestar.blogspot.com

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  3. Que texto lindo, Beatriz... Nem vou tentar dizer sobre como eu acho despedidas insuportáveis. Pensando friamente, acho que é melhor não ter a chance de se despedir, e nem perceber que vai acabar. No fundo, a gente se despede de cada momento o tempo todo, e deixa eles ali, infinitos e marcados na gente..
    Beijo!

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  4. Concordo super com o comentário da minha amiga Analu aí em cima, hahaha! É bem isso mesmo. Despedidas são dolorosas, mas acontecem a todo mundo sem que a gente nem perceba.

    Beijos, flor!

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