19 novembro 2017

Não fui suficiente.
Você me disse que não éramos nada, só espaço entre as palavras,
frases, linhas
Até que elas aparecessem na ponta da língua
prontas para serem
despejadas
atiradas
ditas, sentidas, ouvidas

Eu, espaço
Silêncio
Pausa
(Temporária)






(Mas sou, sempre fui mais que suficiente)

13 agosto 2017

Deixa molhar e lavar o peso da minha caminhada

Acho que não cheguei a comentar aqui - faz tempo que não dou as caras - o que me aconteceu no início do ano. Por incrível que pareça, passei numa prova de transferência de uma faculdade em Recife. 

Até aí tudo bem, você pensa, que notícia ótima bia foi pra casa. Só que eu não fui. 

Fazia um bom tempo eu queria colocar em palavras esse período, mas nunca soube como. Agora, acho que hoje, nesse dia dos pais, parece ser o momento certo. 

Eu recebi a notícia em uma segunda. Todos pularam, não acreditaram, sorriram, choraram e eu fiquei sem reação. Nenhuma. Eu aqui em Maceió e eles lá em Recife. Minha mãe ligou pra faculdade, conferiu novamente o resultado e, sim, eu tinha mesmo passado. Todos felizes, nos céus. 
E meu coração pesado. 

O período de inscrição era sexta, então na quarta eu já fui pra Recife entender como seria tudo e quais documentos eu precisaria. Cheguei lá, fui na faculdade, teria que reprovar um período; todos eufóricos, só felicidade porque eu iria voltar, coisa linda. 
E meu coração pesado. 
Chorei. 
Falei a meu pai não sei o que fazer. 

Ninguém entendeu, me deram a escolha, opções, motivos pra transferir, motivos pra não continuar aqui. Entendi todos eles, concordei com todos.  
Mas meu coração permaneceu pesado. 

Fiz rebuliços, confusa, fiz confusão, estressei a todos, meu pai sofreu mais do que todo mundo, indo pra lá e pra cá, tentando resolver tudo, movendo céus e terras, afinal eu ia voltar pra minha casa, pra perto deles. Minha família querida. 

Na sexta, tudo deu errado, ficamos resolvendo as coisas até de noite e nada de dar certo. Chorei, chorei, algo dentro de mim dizia que meu lugar ainda não era ali. 
Que dor, que confusão, eu não sabia mais de nada, minha família, meu amor maior, e eu não conseguia ficar ali. 
Meu pai não aceitou mais essa confusão, brigamos, gritamos, choramos. 
Pensei, perdi meu pai ali. 
Fui contra tudo e todos, meus maiores exemplos, meus amores, e cancelei a transferência. Sem dizer nada a ele antes. 
Ele parou de falar comigo. 
Pensei, perdi meu pai definitivamente. Por quê? Pra quê? 

Nunca sofri tanto dentro de mim; como me doeu ir contra eles, pela primeira vez na minha vida. Escolher de espontânea vontade viver longe deles; escolha essa que carrego no meu coração todos os dias. Não há um dia que eu não acorde e pense se tomei a decisão certa: estar aqui, sozinha, distante de todos. Até hoje me dói nas vísceras. Até hoje penso em voltar correndo pros seus braços, pra minha casa, minha cama; mas permaneço aqui, sozinha, trilhando meu próprio caminho. Não sei se to certa, se fiz errado, só sei que continuo indo. Hoje meu pai já me perdoou, ele fala comigo, diz que me ama (apesar do que fiz) e que sempre estará comigo. Ele entende as minhas escolhas, não as aceita muito bem, mas segue ao meu lado. E é por isso que eu o amo profundamente. Decidir ficar distante foi a escolha mais difícil da minha vida, tenho certeza, cada dia arco com as consequências dela, mas tê-lo ao meu lado me ajuda a aguentar a barra que é crescer e amadurecer. Não somos muito de demonstrações de afeto e etc, mas eu sou ele e ele sou eu e esse é o maior elogio que alguém poderia me fazer. 



(Resumi bem a história, esse só foi um pseudodesabafo porque esse dia ta mexendo muito comigo. Sei que ta confuso e mal escrito, mas colocar um pouco disso pra fora foi purificador (tipo chuva nos nossos ombros, sabe? Bem Deixa molhar mesmo). Chorei e ainda choro de saudade, dessa história e de como foi difícil passar por tudo isso. Espero que um dia ele aceite e me entenda completamente.) 

23 abril 2017

meu bem,

Hoje me vesti de você
senti tuas mãos, teus pés, teu cabelo e pele
depois voltei a mim pra sentir você de novo, aqui, perto de mim
dentro, fundo, ocupando minhas horas, meus pensamentos e corpo todo
Abriu as minhas portas, janelas, sentou na sala e me fez sua 
Toda sua
pele, barriga, pernas, pés, pescoço 
Você tocou meus precipícios, abriu os braços e se jogou dentro de mim
com esse sorriso, essas mãos nas minhas caminhando pelo mundo mesmo com meu medo de entrelaçar os dedos em outros dedos pairando ao nosso redor
Você esperou esperou, olhou nos meus olhos, pegou meu braço, foi descendo e segurou minha mão 
Não quis mais soltar
Aceitei
Abri bem os braços e te encaixei
no espaço entre meu querer e não querer
e fui, segui contigo bem aqui 



16 abril 2017

Despedaçada,

vou andando
Sem destino, meu corpo move sem parar
Olho pro chão, a chuva ensopou as manhãs de domingo e resolveu recriar o céu em abismos profundos entre paralelepípedos irregulares, descontínuos e reconvexos
Puxo de dentro esse entreolhar, essa confusão
As nuvens recobrem minhas pupilas entreabertas, meio dilatadas meio contraídas
Paro, respiro
a chuva tem cheiro de verde grama, árvores cheias, folhas caídas e terra molhada
Me recosto nessa imensidão que me rodeia e me acalenta no instante em que vejo o agora
Sinto, cheiro, toco, escuto
volto
ando
Sem rumo, hesitante e indecisa
Mas vou, não deixo de ir





22 janeiro 2017

Não sei exatamente o que dizer de 2016

Minha roommate certo dia apareceu com uma planta, até agora não descobrimos qual planta era, arruda ou arueira, só sei que decidi chamá-la de Bernadete e assim o foi. Passei uns dias cuidando de bernadete, colocava água, conversava, colocava no sol no fim das tardes e fazia mil snaps com ela pra mostrar ao mundo que agora eu era madrinha e que a vida era uma coisa engraçada. Alguns dias depois, bernadete se mostrou esquisita, algumas folhas caíram, outras amarelaram e ela foi murchando aos poucos. Quanto mais ela murchava e se encolhia dentro de si, mais eu cuidava, colocava água, conversava, não entendia. Por fim, ela não aguentou mais e perdeu todas suas folhas, morreu, murcha, sem vida. Nossa planta não aguentou sequer dois meses conosco. 

Lembro que toda vez que chegava do estágio eu sentava no sofá e ficava olhando ela lá no canto da sala, perto da televisão e da porta da varanda. Às vezes eu deitava e apenas ficava lá com ela, nessa calmaria acolhedora, sem ninguém por perto, só eu e ela pensando a vida e me dando conta de seus caminhos surpreendentes, assim como da sua efemeridade. 

bernadete me fazia pensar em mim mesma, nunca soube responder por que, só sei que sua presença tinha esse efeito sobre mim. Até quando ela se foi. 

Nesses tempos me vi refletida na tarde que passava da distância de uma porta de varanda até a sola dos meu pés que descansavam sobre o braço do sofá enquanto eu pensava que bonita essa coisa de viver e crescer sempre. Nem que seja pra morrer no fim, já que este é o meu fim mesmo e o de bernadete também. 

Mas viver sempre e crescer também, o tempo todo. 
E esse ano só foi isso. 

Nunca pensei que sentiria ou viveria todas as coisas que pude viver esse ano ou que seguiria os caminhos que segui; até sonhei com uma realidade semelhante, mas a vida veio e se transformou em algo muito além do imaginável. Por um bom tempo achei que estava incompleta, sem rumo, perdida nas escolhas impossíveis que meu coração teimava em escolher sempre e sempre. Mas eu só precisava me encontrar e foi nesse ano que comecei a entender um pouco quem venho me tornando esse tempo todo, minha força, minhas risadas, meus choros e passei a me enxergar melhor nesse caminho torto que é a vida. Como uma construção que vai ganhando e ganhando mais um tijolo, mais um formato, se transformando em algo reconhecível, tangível, exatamente quem serei (e sou).  

Foi nesse ano que coloquei meus pés no mundo, viajei sozinha, conheci pessoas incríveis, conversei mais, saí de dentro de mim e resolvi viver ao meu redor, me aventurar e me descobrir sozinha sem o apoio da família e dos amigos por perto. Esse ano eu cresci porque decidi dar uma chance a mim mesma e a esse mundo enorme; foi então que vislumbrei exatamente quem sou e a minha força nessas esquinas da vida, consequência de quem eu era antes, das vezes que chorei, me desesperei, me despedacei por dentro e depois ergui a cabeça. 

Meu eu como resultado de quem fui no percurso que resolvi seguir e continuo a ser no que ainda virá, vivendo e crescendo sempre. Até ser ainda mais eu, forte, segura, confiante, imperfeita, e abraçando ainda mais a chance de ser mais eu um dia após o outro. 

Então eu entendi a beleza dessa sucessão de coisas - talvez - aleatórias, dessa soma sensacional de coisas que nos tornam quem somos, dos caminhos, do percurso, das pessoas que encontramos, dos beijos e abraços que damos, dos choros que choramos que juntos se somam e resultam nisso tudo que somos, sou, vou sendo e aprendendo. Um dia após o outro. 

dois mil e dezesseis, em todos seus aspectos, doeu dentro dos ossos, mexeu, fervilhou, inquietou, fez chorar, sofrer, desacreditar um pouco do mundo pra depois acreditar de novo a cada novo amanhecer, mas dois mil e dezesseis também fez crescer (tenho certeza) apesar dos pesares, fez em cantos escondidos e anônimos coisas lindas, nem sempre notadas, fez sorrir, abraçar, sonhar e viajar na imensidão que somos nós e os outros. dois mil e dezesseis, mesmo difícil, foi lindo e assim dezessete também será.